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Friday, April 06, 2012

O Poder – um dos mais perigosos mecanismos de “corrupção” dos valores e da ética humana, numa perspectiva da ES – Ecologia do Ser

O Poder – um dos mais perigosos mecanismos de “corrupção” dos valores e da ética humana, numa perspectiva da ES – Ecologia do Ser




“O mundo é um lugar perigoso para viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.” Albert Einsten


Chomsky [1] afirmou (creio que era mais ou menos esta a ideia) que as acções humanas, os valores e a personalidade “do indivíduo” são o reflexo, por um lado, dos valores e cultura da sociedade onde vive e “cresce” e, por outro lado, das suas próprias opções. É sempre difícil conseguir determinar com exactidão qual factor é mais preponderante na forma como as acções e atitudes são tomadas.

De certa forma, é assustador pensar no tremendo potencial destrutivo contido no ser humano. Por vezes com uma relativamente ligeira alteração de contexto social temos indivíduos, até então aparentemente pacíficos, a cometer atrocidades como tortura, violações, homicídios.

Como é que, por exemplo, com uma alteração do contexto político tivemos milhares de cidadãos a perseguir, matar, saquear os mesmos cidadãos de raça judia com quem viviam muitas vezes, até então, pacificamente lado a lado?

Temos por referência a Alemanha nazi mas a perseguição instigada pelos nazis sucedeu na quase totalidade dos países ocupados pelas tropas germânicas, e muitas vezes praticada pelos próprios habitantes locais. Mesmo em Portugal, na idade média, em episódios pouco falados nas aulas de história, houve episódios hediondos de perseguição e massacre.

De uma forma muitos simples podemos afirmar que o ser humano possui pois um tremendo potencial quer para fazer o mal, quer para fazer o bem. Sendo que as suas opções são pois, e em larga medida, quer condicionadas pelo seu contexto social, quer determinadas pelo seu próprio arbítrio.

A “pressão” e influência do grupo é, no entanto, extremamente poderosa. Somos seres sociais e tendemos a não suportar sentirmo-nos excluídos ou segregados. Quase não existe maior temor para o indivíduo que vive e quer viver em sociedade do que o de se sentir excluído, como não fazendo parte da “tribo”. Vivemos em sociedades estruturadas em torno do “individualismo” mas nem por isso somos imunes, bem pelo contrário, a essa premissa quase fundamental: Queremos fazer parte da tribo.

Assim sendo, muitas vezes, estamos dispostos a quase tudo para o conseguir. É mais “normal” tentarmos adaptar-nos e comportar de forma a podermos fazer parte do grupo (assimilando e reproduzindo comportamentos, padrões, rituais) do que auto-excluírmos-nos do mesmo derivado de algum tipo de, por assim dizer, objecção de consciência.

Por outras palavras, mesmo que em certas situações o “preço” a pagar para pertencer ao grupo seja bastante elevado, nós estamos dispostos a esse esforço em prol da nossa profunda vontade ou necessidade de pertença.

Isso significa que, por exemplo, na Alemanha nazi (como poderíamos utilizar para exemplificar qualquer outro contexto de perseguição étnica, racial, sexual, etc.) num grupo de vinte nazis que deambulavam à caça de vítimas para espancar, humilhar, torturar até poderíamos ter, digamos, dez indivíduos que poderiam sentir alguma objecção de qualquer ordem em fazê-lo, mas mesmo assim, provavelmente, optariam por o fazer de forma a não se sentirem excluídos do grupo.

Reflectirmos sobre esta questão, e chegarmos um pouco a esta conclusão, causar-nos-á provavelmente algum desconforto … é uma ideia verdadeira mas também verdadeiramente assustadora.

Então, o que fazermos para que a ética e a moral possam prevalecer?

Bom, uma possível resposta não será certamente fácil ou linear. Em certa medida o ser humano é um ser complexo e repleto de interrogações.

Há sem dúvida a componente valorativa das sociedades humanas, aquilo que são os seus padrões culturais, valores e, sobretudo, a sua ética. À partida quanto mais “evoluídos” (com tudo o que de subjectivo a expressão “evoluído” possa ter) forem os padrões morais e éticos de uma determinada sociedade, em princípio, mais evoluídos serão também os indivíduos que dela fazem parte.

Actualmente pode-se afirmar que determinados valores se sobrepõem em certa medida à própria ética e moral. Vivemos numa sociedade profundamente materialista, competitiva e meritocrática. Profundamente individualista também.

Nesse sentido uma grande parte dos indivíduos que fazem parte da nossa sociedade têm por principal prioridade o atingir de um nível de conforto material elevado, um elevado estatuto social e por vezes não “olham a meios” (nem fins) para o fazer.

Uma grande parte daquilo que é a nossa realidade social e económica actual é bastante determinada por um conjunto muito restrito de determinadas corporações multinacionais (os lucros de várias delas são superiores ao PIB de diversos países juntos). E no mundo corporativo existe, acima de tudo, e antes de tudo, uma velha e principal máxima: o maior lucro possível ao menor custo possível. Não nos vamos debruçar nesta reflexão sobre o que isso implica actualmente mas podemos afirmar, por exemplo, que os próprios mecanismos de participação e funcionamento democrático se encontram em larga medida, e cada vez mais, limitados pelos próprios mecanismos de poder e influência corporativos.

E por falar em poder …vamos agora debruçar-nos sobre o eixo principal desta reflexão. O poder, ou melhor, os “mecanismos do poder”, sobretudo a dualidade dominação – subjugação, encontram-se imbuídos em quase todas as relações humanas. Relações, de resto, da mais variada ordem. Estamos portanto a referir-nos a relações familiares, amorosas, pessoais, laborais, sociais, etc. No fundo a praticamente todos os diferentes tipos de relações existentes.

Por aí podemos já, de alguma forma, percepcionar a importância que a observação e consciência crítica sobre esses mecanismos adquire. De uma forma geral pode-se sem dúvida afirmar que essa consciência e capacidade de observação é bastante reduzida, senão esses mecanismos não seriam talvez tão poderosos e determinantes no essencial da maior parte das relações.

Creio que não temos muito bem noção do que isso significa mas o poder trazido por uma determinada posição “privilegiada” e/ou de dominação sobre outro(s) indivíduo(s) e/ou ser(es) tem um tremendo potencial de se traduzir nos nossos comportamentos e atitudes de uma forma que pode mesmo chegar a situações extremas de violência. Dito por outras palavras: de trazer à superfície o que de pior existe em nós.

Basta observarmos a nossa sociedade e relações para encontrarmos de uma forma bastante profusa exemplos disso mesmo. Na verdade, e não obstante a profunda hierarquização da nossa sociedade, podemos afirmar que essas situações ocorrem aos diferentes níveis hierárquicos sendo que, vezes sem contra, aqueles que são submetidos a situações de opressão e violência diversa por parte de outro(s) que se encontram hierarquicamente em níveis superiores acabam, também por sua vez, por reproduzir essas mesmas situações sobre outro(s) que se encontram em níveis hierárquicos ditos inferiores. Sendo que, por vezes, fazem-no com ainda mais violência e agressividade. O que faria sentido seria que por conhecerem bem essas formas de opressão, por serem vítimas delas, fossem especialmente sensíveis ao seu carácter negativo e violento. Faria sentido que fossem os primeiros a repudiá-las. No entanto o que acontece frequentemente é precisamente o oposto, e assim prosseguimos enquanto indivíduos e sociedade num ciclo doentio de opressão e agressão.

A ética e a moral são pedras basilares do “edifício social”. São elas que permitem, de alguma forma, mitigar os comportamentos sociais mais perniciosos e condenáveis que são, simplificando, aqueles que se traduzem nalgum tipo de violência ou desrespeito pela liberdade e bem-estar do próximo.

É nesse sentido que os valores éticos adquirem um papel fundamental no desenvolvimento civilizacional da sociedade e pessoal dos indivíduos.

São a ética e a moral de uma determinada sociedade que retiram ou atribuem legitimidade a determinado acto ou acção. Se há actos que são de forma consensual socialmente reprováveis, existem outros em torno dos quais ocorre uma profunda discussão e dificuldade de consenso (já para não falarmos das óbvias oscilações geográficas e culturais). Isso é perfeitamente normal e significa somente que os valores éticos e morais de uma determinada sociedade não são estanques e se encontram num processo de constante evolução. Tendencialmente e idealmente essa evolução deveria ser num sentido positivo, ou seja, de valorização e protecção do bem-estar de todos os seres.

Pode-se dizer de uma forma geral que a evolução tem sido de facto positiva. É importante recordar, só a título de exemplo, que o direito de voto por parte das mulheres foi uma conquista somente, imagina-se, do 25 de Abril! O que traduz bem o grau de atraso e conservadorismo tardio que vigorou em Portugal em boa parte do século XX.

A muitos outros níveis há ainda imenso por conquistar.

Numa perspectiva da Ecologia do Ser “o poder” é um mecanismo por inerência quase sempre negativo e que possui um impacto social e humano negativo, se estivermos a pensar numa estruturação equilibrada das relações humanas e sociais. Nesse sentido o caminho apontado é o um constante questionamento das relações profundamente hierarquizadas que ocorrem na nossa sociedade. Não é nada de propriamente inédito e novo, é simplesmente o colocar em prática de princípios proclamados há poucos séculos atrás de “Igualdade e fraternidade”. Não num sentido demasiado abstracto ou genérico mas num sentido profundamente prático e aplicado à escala de praticamente todas as relações que nos definem e estruturam enquanto seres e, por inerência, enquanto sociedade: amorosas, familiares, laborais, sociais, etc.

Não é uma negação de que possam existir diferentes papeis e níveis de protagonismo, nomeadamente diferentes capacidade de liderança e iniciativa. Simplesmente isso pode surgir NATURALMENTE de relações sociais e humanas equilibradas e nunca pela imposição de um determinado estatuto ou papel hierarquicamente superior.

Toda esta reflexão, que de um ponto de vista prático pode ser aplicada e desenvolvida relativamente a inúmeros contextos (que provavelmente ficarão para outras jornadas de reflexão), neste caso tem como ponto de referência primordial uma prática recente que tem vindo e proliferar (como várias outras pragas) no meio estudantil nacional:

As praxes académicas.

Um dos aspectos mais surpreendentes prende-se com a forma como temos vindo a viver e conviver, sem qualquer processo de questionamento, com essas práticas e rituais.

Poderá parecer extremo comparar por exemplo a praxe académica a muitas outras práticas de opressão e humilhação do ser considerado “inferior” que ocorrem infelizmente um pouco por todo o mundo, e Portugal não é excepção. Poderá parecer extremo comparar a praxe académica em Portugal por exemplo à opressão e submissão da “mulher” nos países islâmicos, particularmente nos mais fundamentalistas.

Poderá de facto … mas o cerne da questão é que o mecanismo (i)moral que tem por base possui inúmeras semelhanças. Os contextos sociais e culturais são bastante diferentes o que permite ainda condicionar a forma como esses mecanismos se exprimem. Mas os mecanismos, a prepotência de um perante o outro, a fétida necessidade de rebaixar e destituir o outro de direitos (por vezes mais elementares) tem porventura mais de semelhança do que de diferença.

A praxe pode parecer somente um jogo, uma brincadeira. Mas parece-o porque temos um contexto moral mais amplo que considera várias práticas e formas de manifestação praxista ilegais, como que estando para “além de um limite” ético que nem a praxe poderá transpor. O que não é sempre uma garantia que assim suceda. Sucederam já (e continuam a suceder) inúmeros casos graves de ofensas à própria integridade física de alguns “caloiros”. E isto são os casos que se tornaram conhecidos ou em que houve coragem e capacidade de denúncia. A pressão do “grupo” é tremenda, e muitos caloiros estão dispostos a muito, muitas vezes a quase tudo, simplesmente para não se sentirem marginalizados e excluídos.

A praxe traz, sem qualquer dúvida, ao de cima o pior que existe nos indivíduos que a praticam e defendem. Veja-se as expressões de agressividade, os mórbidos rituais de humilhação e submissão, a agregação do grupo de violentadores em torno do rebaixamento das vítimas.

A praxe pode ser integração, divertimento, um ritual?

Poderia ser se não fosse a praxe … praxe. Se em vez da praxe houvesse uma integração não hierarquizada e não baseada na submissão do outro. Mais uma vez a questão essencial é: o mecanismo que tem por base.

Quando vejo “a praxe” a imagem para a qual me sinto remetido é muito mais a de um campo de concentração nazi, com os carcereiros em seus uniformes negros, com as vítimas em seus uniformes que não têm senão o intuito de os destituir da sua individualidade e humanidade, respeito até, numa evidente relação de opressão/humilhação – submissão.

Podemos pensar que são muito diferentes as repercussões de uma relação “Soldado da Gestapo” e “Judeu” e a de uma relação “Doutor” e “Caloiro” … dado que na primeira situação estamos a falar de uma situação limite de pleno desrespeito e violentação do valor da vida humana. Sim, são diferentes e os graus de implicação têm de facto diferenças. Mas serão as diferenças assim tão acentuadas? Será assim tão inócuo permitirmos e tolerarmos moralmente a existência de uma prática tão desprovida de sentido maior? Será no fundo o mecanismo base assim tão diferente?

Muito mais haveria a dizer ou reflectir. Muito mais fica por dizer. Acima de tudo, talvez fosse importante lançarmos uma verdadeira e profunda reflexão sobre as bases morais e éticas da nossa sociedade e pensarmos em que direcção pretendemos de facto evoluir. E que contributo realidades como a praxe de facto nos dão.

Pessoalmente sinto uma tremenda desilusão com o papel que a formação universitária dos jovens possui ao nível da formação do seu carácter ético e cívico. Existem felizmente (e talvez muitas) bonitas excepções. Mas existem infelizmente muitas (talvez bem mais que as anteriores) não excepções. E existem situações como a praxe que me parece contribuir, sem grandes margens de dúvida, para o despoletar daquilo que existe de mais negativo e até perigoso na essência humana.

Não é fácil colocar em causa uma realidade que é actualmente considerada quase intrínseca ao meio académico e de uma forma geral tida como tão inócua.

Ainda me recordo do papel que os jovens estudantes universitários tiveram na luta pelos ideais cívicos e democráticos um pouco por todo o mundo (no Portugal fascista também).

A praxe parece-me uma tradição nos antípodas dessa luta pela emancipação da liberdade individual e pelos direitos humanos. É sintomática, a meu ver, de um enorme vazio e ausência de sentido que assola uma boa parte dos jovens da nossa sociedade.

Consigo imaginar mil e uma formas desses mesmos jovens darem outro sentido e utilidade à sua vida e à massa crítica que constituem ou deviam constituir. Estamos numa época de graves problemas ecológicos, de ataque aberto aos direitos e garantias humanas e sociais, e existe uma enorme carência de jovens, em quantidade e qualidade, capazes de se dedicarem de corpo e alma a essas (e outras) nobres causas. Existe vida para além dos rituais praxistas, existe vida para além do passeio no shopping, do telemóvel da última geração, ou da embriaguez. Existe, ou pelo menos deveria existir. E é esse o contributo que a Ecologia do Ser pretende dar.

Não está em causa o direito dos jovens se divertirem, de fazerem um ou outra coisa mais “doida” … mas acima de tudo está em causa todo o belo potencial que possuem para serem melhores seres humanos e para serem capazes de contribuir construtivamente para uma sociedade bem melhor. Não é pena vermos esse enorme potencial desperdiçado? Não é pena vermos o tremendo potencial de tempo, energia e espírito de grupo que poderia (e deveria) ser usado em causas realmente úteis e belas ser simplesmente desperdiçado em rituais e tradições vazias?

Pense bem nisso, e depois, talvez, dê-me a resposta.

Abraços fraternos. Pelo bem de todos os seres.


Pedro Jorge Pereira – Facilitador e dinamizador da ES - “Ecologia do Ser”

ecotopia2012@gmail.com

93 4476236


Próximas oficinas da ES – Ecologia do Ser

25 de Maio de 2012, 6ªfeira, Spaso Zen – Sessão Informativa/Fórum

26 de Maio de 2012, Sábado, Spaso Zen – Oficina prática ES


[1] Wikipedia – A Encilcopédia Livre (2012). Noam Chomsky. [Em linha]. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Noam_chomsky>. [Consultado em 25/03/2012]

[2] A imagem utilizada é a “capa” do filme “Praxis” de Bruno Morães Cabral, um excelente documentário sobre o fenómeno da Praxe. Informação sobre o Documentário e entrevista ao realizador disponível em: [Em linha]. < http://p3.publico.pt/cultura/filmes/2098/praxe-o-desejo-de-obedecer-hoje-para-comandar-amanha >. [Consultado em 05/04/2012]

[3] Revisão e correcção ortográfica por Cristina Gomes.

[4] O autor escreve (dado que também pensa) pela gramática anterior ao designado “Novo Acordo Ortográfico”, cuja existência, de resto, considera pouco menos que inútil

Tuesday, December 13, 2011

Diz que é uma espécie de democracia

Diz que é uma espécie de democracia

por Pedro Jorge Pereira

Activista e formador eco-social

artigo publicado parcialmente no Barómetro Social


O actual primeiro-ministro do estado português estabeleceu uma série de medidas relativas ao orçamento de estado para 2012 que representam um tremendo retrocesso relativamente a algumas das principais conquistas do povo português num contexto pós 25 de Abril. Direitos sagrados e consagrados como o do subsídio de férias e de natal vêm-se dessa forma subitamente, num abrir e fechar de olhos (diria mais num fechar de olhos) “surripiados” em nome de um hipotético e quase profético combate ao “défice” e à “crise”.

Uma prática constante de diversos regimes (e em especial daqueles particularmente autocráticos) tem sido o de encontrar um “inimigo” ou ameaça externa, por vezes interna também, capaz de legitimar e justificar toda uma panóplia de medidas e acções que em circunstâncias normais seriam … aquilo que são: um violento atentado aos direitos e liberdades dos cidadãos. Direitos esses, tantas e tantas vezes, conquistados através de lutas de décadas com muito sangue, suor e lágrimas de muitos combatentes pela liberdade e direitos dos cidadãos.

Numa era de obstinado neo-liberalismo em que a economia de mercado impera sobre tudo e sobre todos (ou pelo menos é essa a ideologia dominante a nível mundial) o terrível inimigo essencialmente “externo” (já que nenhum governo assume grande responsabilidade nos elementos causadores e também no agravamento de tão tremendo fenómeno) é a crise económica global. Muito falado é também o obsessivo “combate ao défice” como objectivo primordial na estratégia de enfrentamento à referida crise.

Creio que em relação à crise existem primordialmente aspectos tangíveis e reais inerentes à mesma e aspectos, diria, especulativos.

Ou seja, parece-me que um modelo económico que surgiu e se desenvolveu baseado numa tremenda torrente de especulações financeiras globais e baseado numa economia cada vez mais de base especulativa (e de criação virtual de crédito) do que real não poderia senão caminhar a passos largos para a sua própria implosão. Um modelo económico baseado na produção em massa de bens de consumo supérfluos e descartáveis, a partir de matérias-primas cada vez mais escassas, e com um violento impacto ambiental, não poderia senão manifestar cada vez mais o seu carácter limitado e finito (ao contrário do que preconizam uma grande parte das teorias evidentemente mirabolantes que o justificam).

Parece-me ainda que um modelo económico e ideológico que preconiza a “mercantilização” de todos os bens e serviços, nomeadamente os essenciais à vida, como paradigma máximo de crescimento, não pode senão acabar por tornar evidente, mais tarde ou mais cedo, o carácter absurdo da sua suposta legitimidade.

Ainda assim, e apesar de tudo isso, é ainda esse modelo que se vai propagando como um vírus da mais feroz virulência pelo mundo fora e também em Portugal. Mais ainda: não são muitos os que ousam colocá-lo de forma explícita e directa em causa. Ou seja, indiciá-lo como a principal razão para a ocorrência de muitos dos fenómenos que ele próprio diz pretender enfrentar, nomadamente o “défice”, a “crise”,etc.

Neste sistema tudo e todos (o próprio ser humano) é reduzido ao seu valor de mercadoria, valor esse que quando reduzido ou insignificante pode significar a assumpção dessa mercadoria ou bem como “refugo” ou matéria dispensável. E numa era do “descartável” nem o próprio valor do “trabalho” (como ferramenta de inserção, coesão e valorização individual no colectivo) se encontra a salvo de se tornar “descartável” através de uma cada vez mais implacável precariedade eufomisticamente designada de “flexibilização”.

Mas como vinha dizendo, há de facto diversos aspectos tangíveis inerentes ao “natural” esgotamento deste sistema económico/ideologia. Há também, no entanto, muitos aspectos que indiciam a existência de uma importante base especulativa.

Tanto ao nível dos aspectos tangíveis como dos intangíveis há um aspecto inerente a ambos que se reveste de uma importância primordial:

Raramente são “apontadas” as verdadeiras razões do ponto a que a situação chegou e a permanente injecção de capitais no sistema bancário parasitário, à custa de uma cada vez maior depredação dos cada vez mais parcos recursos económicos da maior parte da população, sobretudo daquela que não faz parte da minoria elitista com um enorme poder económico (que se repercute ainda em influência a outros variados níveis), somente tem vindo a atenuar ou disfarçar a verdadeira dimensão da dita crise. Ou seja, a gravidade de todos os devaneios especulativos da banca e da bolsa só não é mais evidente porque o cidadão comum, que aspira somente a viver a sua vida tendo a possibilidade de satisfazer as suas necessidades mais elementares, tem vindo a pagar do seu bolso, do seu esforço, o encobrimento da tremenda vulnerabilidade e disfuncionalidade inerente ao sistema monetário internacional.

Por detrás de tudo isto convém não esquecer um detalhe importante: Por detrás de toda uma máquina, de todo um sistema, estão alguns indivíduos que têm de facto um enorme poder aos mais variados níveis. Hoje em dia as principais corporações multinacionais têm, várias vezes, maior poder económico do que vários países juntos. Por outro lado essas multinacionais são detidas pelos seus accionistas. Dito de outra forma: Um conjunto relativamente restrito de indivíduos tem maior capacidade de influência nas decisões que condicionam a vida de milhões de habitantes em todo o planeta (pois o seu raio de acção é cada vez mais “global”) do que essa enorme maioria. Não tanto através da politica (mas também), não tanto através da força militar (mas também), mas sobretudo através dos mercados. E a questão é que quase todas as esferas de decisão e relacionamento são transformadas em peças do enorme tabuleiro de xadrez mercantil.

De certa forma estamos perante uma situação que se pode classificar de neo-feudalismo. Temos já não uma realidade em que os agricultores e artesões tinham a obrigatoriedade de pagar o tributo ao senhor feudal de determinada região (e este posteriormente à coroa) mas uma realidade em que de cada vez que “compramos” algo estamos a pagar o nosso tributo aos senhores que detêm a posse do conjunto cada vez mais restrito de multinacionais que controlam e detêm a produção de uma grande parte dos bens e serviços que utilizamos e necessitamos.

Esses bens e serviços, é importante dizer, são praticamente … todos. Por outro lado é ainda mais importante salientar que os governos tendem muitas vezes (talvez na maioria das vezes) a defender e representar muito mais os interesses dessas corporações, logo desses novos senhores feudais, do que do comum cidadão. No mundo neo-liberal as decisões têm muito mais por propósito garantir “boas oportunidades de negócio e lucro” do que realmente contribuir para o bem-estar da generalidade das pessoas. Na realidade os dois objectivos são em larga medida antagónicos, e o primeiro tende a ser muito mais preponderante num contexto em que um pouquinho mais para esquerda, ou um pouquinho mais para a direita, os principais governos e partidos nunca deixam de obedecer a uma lógica e ideologia obstinadamente neo-liberal. Uma ideologia que, de resto, tem essa propriedade única de parecer uma não-ideologia. Tem essa propriedade de parecer uma “inevitabilidade histórica natural” e não fruto de uma agenda e de um plano estrategicamente traçado pelos principais arautos do neo-liberalismo que começaram a adquirir cada vez maior poder sobretudo na década de 80 com os regimes fundamentalistas do neo-liberalismo de Reagen e Thatcher. Esta última também conhecida pela “dama de ferro” e que fez de facto justiça ao seu cognome.

Por outro lado é uma ideologia que nunca o assume ser, nem quando as medidas e decisões são de carácter completamente neo-liberal. Mas são sempre justificadas em função de uma série de conceitos mais ou menos vagos como o tal propalado “combate ao défice”, “reestruturação económica”, etc. Enfim, nada de novo quando estamos tão habituados a ver inúmeras intervenções de destruição do património histórico ou natural serem designadas de “requalificação” e “valorização paisagística”. Também não é novidade a forma quase inacreditável como essa táctica de recurso a “lugares comuns mais ou menos vagos” continua a funcionar de forma tão eficaz … desde logo ao nível dos próprios órgãos de comunicação social tornados, na maior parte das vezes, mais em órgãos de propaganda da ideologia neo-liberal do que propriamente em jornalismo independente, crítico e impulsionador de uma verdadeira reflexão.

Em Portugal é também um “lugar comum” designar o direito ao voto como uma das principais conquistas da revolução de 25 de Abril.

Numa perspectiva que pode ser assumidamente polémica (felizmente, pois estamos urgentemente a necessitar de polémicas com coisas e questões que têm realmente a utilidade de o ser), tendo a acreditar que, no actual contexto, o direito ao voto, muitas vezes, mais não funciona como uma forma de legitimar um sistema que à partida se encontra em larga medida … podre. Não existe uma forma mais “simpática” de o dizer. Podre. Em muitos aspectos podre e profundamente “viciado”.

O voto é de facto um direito importante, mas tão mais importante quanto maior for a profundidade das ideias políticas, a profundidade dos programas políticos. Tão mais importante quanto for o nível educacional (que muitas vezes não passa propriamente pelo nível académico) e, sobretudo, a capacidade de juízo crítico por parte dos cidadãos.

Nessa medida parece-me evidente que a actual democracia que existe em Portugal é em muitos aspectos bastante limitada. Quantos dos eleitores votantes leram realmente o programa eleitoral do partido que estão a eleger? Quantos eleitores votam em virtude de uma reflexão crítica independente mais do que de uma fidelidade partidário-clubística, de um condicionamento emocional gerado pelas máquinas de propaganda eleitoral, de uma agradecimento pela régua, pela caneta ou pelo concerto de música pimba oferecido pelo partido e pelo candidato? (quanto mais “populista” melhor). Quantas campanhas discutem realmente ideias, iniciativas, ideais? O cerne da mensagem dos principais partidos, nomeadamente dos com maior representação partidária, é no essencial vaga, vazia e “simplex”. Conceitos como desenvolvimento, crescimento, educação, tecnologia proliferam de uma forma alucinante. É esta Democracia o melhor a que podemos aspirar como ideal pós 25 de Abril?

O maior logro, creio, é assumirmos que temos todos os motivos e mais alguns para nos sentirmos satisfeitos com as “conquistas de Abril”. Conquistamos de facto coisas muito importantes. Desde logo o facto de ter terminado um regime profundamente obscurantista e autocrático que mergulhou Portugal em décadas de estagnação. O maior logro creio, contudo, é esquecermo-nos que a Democracia é um processo em permanente construção, reinvenção e, sobretudo, observação. Se conquistamos muitas coisas é importante não esquecer que outras tantas ficaram por realizar, sonhar, alcançar. Se calhar muitas mais do que as que foram alcançadas. Tantas delas cujo vislumbre se pressentiu em Abril, mas que depois acabaram por nunca chegar a “ser”, sobretudo com o retorno a muitas das situações que a revolução nunca chegou a verdadeiramente a revolucionar (por exemplo a distribuição do poder económico que com relativa rapidez voltou à posse das grandes “oligarquias” e famílias).

Por todos esses motivos parece-me que uma das maiores limitações da actual democracia é o cidadão concentrar ou focalizar a sua capacidade de intervenção, acção e reflexão no mero acto eleitoral que face a um contexto de plena tecnocracia partidária em muitos aspectos não muda propriamente o cerne de muitas questões.

Ou seja, uma das principais limitações da actual Democracia prende-se, na minha opinião, com essa tremenda susceptibilidade de conduzir o cidadão a um papel de acentuada apatia e resignação. Ao papel de mero observador mais ou menos passivo (exceptuando nesse momento em que quase por favor a tecnocracia partidária concede o direito ao cidadão de eleger aqueles que irão tomar o cerne das decisões relativas à sua vida … por eles). Na maior parte dos casos quando existe alguma “revolta” ou não resignação dos cidadãos ela tende a manifestar de forma muito inconsequente, inconsciente e, vezes e vezes sem conta, na alteração, ou não alteração, de determinado sentido de voto que, no fundo, não muda em quase nada a direcção a um panorama social, político e económico cada vez mais, e obsessivamente, neo-liberal. O dito centralismo democrático em Portugal (e na quase totalidade dos países da Europa) parece-me ser a maior evidência disso mesmo.

Por outro lado, e aqui reside outros dos aspectos fundamentais da questão, a realidade é que a eventual mudança de forças e orientações a nível político (quando elas acontecem, e as que têm vindo a acontecer têm sido manifestamente “para pior”) não tem vindo a produzir significativas modificações no plano provavelmente mais determinante aos mais variados níveis: o plano económico.

Os principais partidos políticos, pelo menos aqueles que têm vindo a constituir a diferentes legislaturas em período dito democrático, têm vindo a manifestar uma forte subjugação às principais forças e entidades económicas que se movem, por assim dizer, na sombra. Mas que vezes e vezes sem conta acabam por ser mais influentes e decisivas do que eles próprios. Na realidade, em larga medida não existe qualquer separação entre ambos. Os partidos, e a “elite” que possui maior poder no seu interior, são na verdade o próprio poder económico dominante. São os novos senhores feudais, ou lacaios dos mesmos, que têm vindo a transformar todo o nosso tecido económico e social (nacional e global) num verdadeiro jogo de monopólio bolsista e bancário.

Esse poder é alicerçado num enorme apego a esse mesmo poder, assim como numa tremenda falta de ética e acima de tudo num enorme pressuposto de egoísmo e meritocracia. Esse poder institui a opulência e acumulação exponencial de fortuna de uns poucos em detrimento do mais elementar bem-estar de muitos (a esmagadora maioria da população). Esse poder semeia a desigualdade, a injustiça, a exclusão e a pobreza. E fá-lo com todo o descaramento e legitimidade alicerçada na aparência de normalidade que institui. É legitimo roubar aos pobres para dar ainda mais aos ricos. É legitimo tornar os bens e serviços públicos em “mercadorias” a vender em leilão aos grandes grupos económicos dos senhores feudais dos quais são o mais fiel “xerife”.

São indivíduos profundamente insensíveis e obstinados nos seus propósitos de ascensão na hierarquia político-económica aqueles que dirigem os destinos de milhões de seres humanos no nosso país e também no globo.

Como é que podemos permitir que a democracia se torne nesta teia de poderes, jogos de interesse e, acima de tudo, mecanismo de perpetuação de poder destes novos, e também velhos, senhores feudais modernos?

O Estado somos todos nós? O Estado é cada vez menos todos nós e cada vez mais o todos eles. É um Estado cada vez menos social e cada vez mais um Estado que trabalha e existe para desregulamentar e implodir tudo aquilo que é serviço e interesse público. É um Estado planeado para o ser só na medida em que possa ser útil ao funcionamento da grande máquina especulativa e corporativa.

O Estado tornou-se numa máquina parasitária, pesada e de funcionamento trôpego? Sim, em larga medida tornou-se, sobretudo na medida em que se tornou num Estado à medida do aparelho burocrata do poder dominante e num Estado cada vez menos do e para os cidadãos.

Por outro lado a decisão de tornar o Estado no que se tem vindo a tornar tem vindo a ser isso mesmo: uma decisão. Uma decisão inserida numa agenda e política de neo-liberalização que não esconde nem por instantes se desvia um milímetro que seja da sua genética e “instinto natural”.

Foi esta a democracia porque tanto aspiramos? Uma democracia em que nos resta escolher entre um Estado burocrata, tecnocrático e tremendamente sorvedor de recursos ou uma desregulamentação feroz do mercado e hipoteca definitiva da nossa economia, sociedade e planeta aos interesses dos grandes grupos financeiros globais e nacionais?

Foi esta democracia porque tanto aspiramos? Em que uma nova elite global e nacional, em nome do nosso bem-estar, ousa expropriar, pilhar e destruir numa aura de aparente ordem e sentido de “causa maior”?

Foi esta democracia porque tanto aspiramos? Em que nos tornamos num rebanho dócil e crentes fieis desta nova religião global? Aleluia Banco Mundial, Aleluia Organização Mundial de Comércio, Aleluia Nato.

Diariamente dezenas de decisões - às vezes muito mais determinantes e influentes ao nível daquilo que é a realidade de milhões de seres no planeta Terra do que as dos próprios governos - são tomadas nas salas de reuniões dessas novas instituições supra-mundiais cujos funcionários, a propósito, não são alvo de qualquer escrutínio ou sufrágio por parte do comum cidadão.

O século XX foi pródigo em progressos, conquistas e emancipação dos grupos e classes sociais até aí de uma forma geral quase sempre oprimidas e descriminadas. Um progresso que não surgiu do nada mas que foi o corolário de uma grande luta pela emancipação social e económica dos indivíduos. Pela consagração dos direitos humanos.

Em poucas décadas de neo-liberalismo, em muitos aspectos, temos vindo a hipotecar e vender, a preço de saldo, muitas dessas conquistas. Em nome, precisamente, do nosso bem-estar. Estranho paradoxo este … termos de abdicar de tudo que é essencial, termos de fazer sacrifícios para um dia mais tarde, quem sabe, podemos recuperar uma parte de tudo o aquilo que agora temos de aprender a viver sem …

Esta espécie de aceitação subliminar, esta cultura de aceitação sem questionar ou, menos ainda, obstar seja de que forma for … é exactamente aquela que predominou no país durante as longas décadas de ditadura fascista … e ela é precisamente a chave para a manutenção e disseminação desta democracia tecnocrática e fortemente partidarizada.

Enquanto acharmos que “eles é que sabem”, “eles é que decidem” e, pior ainda, naquilo que é maior procissão de fé à nova religião, acharmos que eles estão lá principalmente para zelar pelo nosso bem e interesses (e que bem Salazar explorou esse papel do “Pai da pátria”) nunca seremos capazes de desenvolver e pensar novas formas de participação e decisão cívica, novos modelos de funcionamento democrático em que os cidadãos adquiram um papel cada vez mais activo e cada vez menos passivo e submisso às lógicas e esquemas partidários. Esquemas esses, e nunca é demais repetir, submetidos sobretudo à lógica de funcionamento dos jogos de influência e decisão dos principais centros do poder económico neo-liberal. Centros esses que se encontram em larga medida camuflados e envolvidos numa aura de secretismo, no mínimo, muito pouco democrático. Teoria da conspiração? É talvez mais fácil e confortável acreditar que a democracia funciona de forma plena, que os homens da política e da economia pretendem de facto o nosso bem … que todo o sistema funciona de forma ética, transparente e em que os cidadãos têm de facto um enorme poder de participar nesta vida democrática. A verdade é que com uma relativa excepção dos países escandinavos, e muito em particular do exemplo da Islândia que tem sido sistematicamente ignorado pelos principais meios de comunicação social, creio que acreditar em tudo isso não é muito diferente de acreditar na fidelidade conjugal de Sílvio Berlusconi.

O que é mais importante, a nossa vida ou o lucro deles? A possibilidade dos seres terem acesso às mais elementares condições de bem-estar, nomeadamente saúde, educação e alimentação, ou a prerrogativa de uma pequena elite acumular cada vez maiores fortunas e viver na mais obscena opulência? A resposta é óbvia. Mas então porque é que vivemos e permitimos a existência de um sistema que tem vindo a agravar e a produzir cada vez mais precisamente o oposto?

Não são meros acasos circunstanciais mas políticas, planos e estratégias muito bem delineadas e alvo de meticulosas elaborações em gabinetes nos principais centros do poder neo-liberal.

Nós gostamos de acreditar que só querem o nosso bem, que os seus propósitos são nobres e solidários. Mas no fundo sabemos que vezes e vezes sem conta não é assim, bem pelo contrário. Provavelmente não é assim na grande maioria das situações.

Um indivíduo, ou, pior ainda, um conjunto de indivíduos sedentos de poder, ou viciados no seu poder, são indivíduos que por norma não olham a meios para atingir os seus fins. E essa é em larga medida uma realidade que determina aquilo que é o nosso dia-a-dia. Essa é uma premissa que quase tacitamente aceitamos como natural nesta forma de democracia predominante.

É um princípio, no fundo, extremamente doentio, mas ao qual nos habituamos como quem tem que viver com uma doença incurável. Mas a verdade é que não tem.

Todo este sistema precisa de um profundo tratamento de choque. Todo este sistema precisa de ser denunciado e exposto antes que já nada mais haja a salvar.

Todo este sistema, e muito em particular os interesses a quem ele provem, precisam de conhecer a capacidade dos indivíduos e cidadãos em dizer “já basta” e a capacidade destes reclamarem o direito a decidir e escolher aquilo que é de facto o melhor para a sua vida. E é bem melhor terem um acesso realmente democrático (e não cada vez mais elitista) a boas condições de trabalho, de educação, de ambiente, de saúde do que a manterem em funcionamento um sistema monetário parasitário e cada vez mais em estado comatoso. Vivemos agrilhotinados por esse “zombie” de que temos que nos livrar de uma vez por todas.

É tempo de partir para novas formas de luta (de preferência não as já as da “praxe”, mesmo com todo o respeito que merecem, do comício e das manifestações com “slogans” gastos) e de reinvenção democrática. É talvez até tempo de desobedecer de forma pacífica. Como dizia Gandhi, “é um dever moral dos indivíduos desobedecerem a leis que são injustas”, como as desta democracia são cada vez mais. Leis fiscais, leis laborais e leis legislativas.

Muito mais fica por dizer mas acima de tudo urge o tempo da acção, reinvenção e repensarmos criativamente os modelos de organização social, económica e política que realmente desejamos para a nossa vida e para a nossa sociedade.

Muito mais fica por dizer, por escrever mas a verdadeira democracia tem de ser sempre, sobretudo, um livro em aberto, à espera de ser escrito por todos os cidadãos com capacidade de pensar e agir livremente. A verdadeira democracia pode e deve ser uma democracia mais directa, mais participada e participativa, onde “responsabilidade” é a palavra-chave numa “responsabilização” que terá que passar pela chamada das pessoas a assumirem o seu lugar activo nos processos de decisão. Muito mais do que serem meramente responsáveis por delegar a sua responsabilidade num suposto representante dos seus interesses. São pródigos os exemplos de formas directas e populares de democracia que surgiram no 25 de Abril. Fábricas, comunas agrícolas, centros sociais auto-gestionados e assembleias populares diversas proliferaram um pouco por todo o país, tendo gradualmente vindo a ser eliminadas e substituídas por formas e modelos convencionais de poder e decisão central.

A verdadeira democracia é bem mais do que uma cruzinha num boletim de voto eleitoral. Tem de ser um livro à espera de poemas, de sonhos, de aspirações realmente fraternas, justas e guiadas pela ética social e ecológica. Guiadas pelo direito de todos os cidadãos a terem o acesso aos bens e serviços que possam satisfazer as suas reais necessidades básicas. Bens e serviços que são cada vez mais um luxo e cada vez menos um direito.

Como alguém disse um dia: Face ao pesadelo que a nossa realidade se está a tornar sonhar é a atitude mais realista que podemos ter.

Um dos meus principais sonhos é o de viver numa autêntica democracia, em que todos os homens são realmente iguais, e em que predominam os princípios da igualdade, liberdade e fraternidade. Utopia? Talvez sim … mas por isso mesmo cada vez mais válida e actual. Já o era há um bom par de séculos atrás, e muitos foram os que dedicaram e deram a vida por ela. Não só por nós, mas também por eles, não nos podemos resignar ao poder daqueles que pretendem concretizar a agenda neo-liberal até às suas últimas e mais doentias consequências. Até porque para já estão no bom caminho para o conseguir. Em épocas diferentes, em quase todos os locais da terra, muitas foram as revoltas populares contra os sistemas feudais dominantes. Muitos foram também as revoltas contra o sistema capitalista industrial que lhe sucedeu. Muitas são também aquelas que acontecem hoje em dia ainda que os contornos sejam em geral radicalmente diferentes do passado. Mas dessas revoltas, numa sociedade orientada para a alienação e entretenimento, fala-se ainda muito, muito pouco. Quem sabe o que aconteceu por exemplo na Islândia?

É tempo pois de nos revoltarmos de forma inteligente, criativa e pacífica contra a ordem mundial e nacional neo-liberal e fazermos de todo o nosso estilo de vida a maior prática de desobediência cívica a um sistema, e às entidades que o representam e instituem. Como? Há muitas e variadas respostas mas as mais importantes são aquelas que formos capazes de desvendar nos novos caminhos que individual e colectivamente há a trilhar.

E não esqueçamos: “Uma caminhada de mil passos começa com o primeiro passo”. (1)

E é só isso mesmo que cada um de nós precisa de fazer … dar o primeiro passo.

(1) Lao Tsé

NOTA: Por não concordância com o designado Novo Acordo Ortográfico o autor continua a escrever conforme a dita “norma antiga”


Tuesday, September 13, 2011

O voluntariado ou uma revolução interior para revolucionar o exterior

Partilho aqui um texto de reflexão publicado na Espaço Aberto - revista alternativa de Set/Out 2011







“O mundo é um lugar perigoso para viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.” Albert Einsten

Perante o exemplo de pessoas que devotam (e devotam é mesmo a melhor forma de o designar) toda a sua vida à causa de “servir o outro” sinto-me numa posição de quase ilegitimidade para escrever e reflectir sobre “o voluntariado”.

Mas afinal o que é o voluntariado? Em que pensamos quando designamos “voluntariado”? A resposta muitas vezes não será porventura fácil ou muito objectiva.

De uma forma sempre “relativa” podemos defini-lo como:

“O voluntariado é o conjunto de açcões de interesse social e comunitário em que toda a actividade desempenhada reverte a favor do serviço e do trabalho. É feito sem recebimento de qualquer remuneração ou lucro. É uma profissão de prestígio pois o voluntário ajuda quem precisa contribuindo para um mundo mais justo e mais solidário.”(1)

Numa sociedade fortemente condicionada por padrões de cariz predominantemente individualista, meritocrático e materialista o “voluntariado” encontra um terreno algo agreste para poder crescer e ganhar raízes. Na verdade os valores principais que nos inculcam vão exactamente no sentido de, de uma forma extremamente competitiva, sermos melhores do que os outros. Estudarmos afincadamente e trabalharmos afincadamente para podermos ter acesso a bons postos de trabalho, para podermos auferir bons rendimentos, para podermos viver com um elevado nível de conforto e acesso a muitos e dispendiosos bens de consumo. Ou por vezes a questão nem se coloca em trabalharmos afincadamente mas sim em sermos “espertos”, ou “espertalhões” para ser mais preciso. O que significa vezes e vezes sem conta não olharmos a qualquer limite ético para conseguirmos atingir os nossos propósitos. A felicidade, ao que nos dizem, é vestirmos roupas de marca caras (quantas e quantas vezes fabricadas por trabalhadores explorados de forma desumana), conduzirmos uma viatura “topo de gama” (independentemente do impacto ecológico desse automóvel), termos um elevado “estatuto social” (quantas e quantas vezes baseado em relações ocas e vazias) termos @ parceir@ bonit@ “importad@” das revistas de jet7 (independentemente de ser um relacionamento baseado no apego, no estatuto ou no sexo sem qualquer vestígio de um puro e verdadeiro Amor).

Mas será que essa é a verdadeira felicidade? No dito “mundo ocidental”, apesar de termos ainda acesso a toda uma panóplia de bens e serviços que são uma longínqua miragem para a maior parte da população mundial (uma miragem tão forte ao ponto de por vezes se lançarem a atravessar os mar em autênticas “cascas de noz” para poderem chegar, mesmo que tudo o que lhes espere, quando chegam, ser uma vida de miséria e exploração, “ao nosso mundo”), o consumo de substâncias anti-depressivas (muitas das quais que mais não são do que autênticas e violentas drogas tornadas “legais” pela classe médica dominante) nunca foi tão elevado e “vulgar”. Creio que o cerne dessa infelicidade radica precisamente no materialismo individualista moderno, que nos torna em indivíduos constantemente insatisfeitos, vazios e cronicamente insaciáveis. Quando se refere materialismo é importante salientar que ele remete não somente para todo um conjunto de produtos “materiais” mas muitas vezes, senão mesmo na maior parte das vezes, todo um conjunto de valores e necessidades que pretendem, eles próprios, preencher o nosso vazio existencial.

Por outras palavras, tornamo-nos tão infelizes porque andamos profundamente alheados do verdadeiro sentido da vida. Tentamos encontrar a felicidade em todas as gratificações e aliciamentos que este sistema hiper consumista moderno tem para nos oferecer quando a felicidade radica, muito mais, naquilo que temos nós próprios para oferecer ao nosso próprio ser (num sentido de realização pessoal e espiritual mais profundo), aos outros indivíduos e seres que partilham connosco este mesmo habitat e ao nosso planeta em geral.

A realidade é que os paradigmas dominantes se têm centrado muito mais naquilo que podemos “tirar” dos outros, do nosso habitat e do nosso planeta (e temos retirado a um ritmo e com um impacto destruidor absolutamente arrepiante) e não naquilo que temos e podemos dar enquanto seres únicos e especiais, como cada ser é na sua singularidade e essência.

De uma forma geral pode-se dizer que se valoriza muito mais o “parecer” em vez do “ser”. Ou seja, todo o sistema faz-se em larga medida de imagens, aparências e muitas, mas muitas vezes, ilusões. Portugal é um país pródigo nesse estado de “encantamento” pós-consumista. Somos um dos países da Europa, quem sabe do mundo, com maior quantidade de auto-estradas (ao mesmo tempo que se deixa “apodrecer” sem qualquer investimento significativo a nossa outrora imensa rede ferroviária). Somos um dos países da Europa, e quem sabe do mundo, com uma das maiores taxas de centros comerciais por metro quadrado (ao mesmo tempo que se deixa caminhar para extinção estabelecimentos de comércio tradicionais, familiares, por vezes há gerações enraizados nas nossas comunidades). Somos um dos países do mundo com maior quantidade de telemóveis por pessoa (ao mesmo tempo que são cada vez mais os casos de idosos que morrem na mais abjecta solidão, sendo a sua morte notada somente quando os vizinhos começam a notar o fedor do corpo em decomposição). Já chega de paradoxos?

Diz-se também, e apesar de tudo, que os portugueses são um povo solidário, humano e com “bom coração”. Generalizações são sempre generalizações e entre os milhões de indivíduos que constituem a nossa população seremos certamente capazes de encontrar bons e maus exemplos disso mesmo.

É sempre difícil aferir em números muitos exactos a situação do voluntariado em Portugal. Na sua essência ele faz-se, e muito, de toda um conjunto de acções, projectos e campanhas também de carácter informal. Ou seja, um@ voluntári@ não tem necessariamente que estar registado ou desenvolver a sua actividade de voluntariado com um enquadramento “oficial”. Na realidade por vezes quanto mais “institucionais” ou “profissionalizadas” se tornam as instituições ou organizações pode haver uma tendência para a perda da essência do que é ou deveria ser o voluntariado. Noutros casos uma certa profissionalização ou organização mais estruturada, por assim dizer, pode permitir produzir uma maior eficiência em termos de projectos e acções. Mais uma vez não existem “fórmulas acabadas” ou perfeitas. Tudo está na capacidade de se encontrar um equilíbrio. Ou o “caminho do meio” como nos ensina o Budismo.

No que diz respeito ao conceito de “voluntariado” tenho de confessar que tenho, desde logo, algumas reservas no que diz respeito à utilização dessa designação. Pessoalmente tendo a ter maior simpatia pela designação “cidadania activa”. Ou seja, na minha visão pessoal o acto de “voluntariado” não se cinge, ou deveria cingir, à disponibilização de algumas horas da nossa agenda para dedicarmos a alguma acção, actividade ou organização sem fins lucrativos ou alguma causa de bem estar social e ambiental. De certa forma creio que o “voluntariado” ainda se encontra restrito a uma componente profundamente caritativa … Como explicar? Creio que é a velha máxima de que mais vale ensinar ou ajudar a plantar (isto para quem é vegetariano a analogia do “peixe” não é muito confortável do ponto de vista ético ;O) do que dar o alimento.

Ou seja, recorrendo a um exemplo: O período natalício é pródigo em acções de beneficência e solidariedade social. No período natalício parece que há um surto de uma febre que nos impele quase obsessivamente para sermos solidários. Em parte isso é bom. Por outro lado é um ímpeto em certa medida “limitado” na medida em que é inconsequente ou, muitas vezes, incoerente. Ou seja, temos por vezes indivíduos ou instituições que praticam e advogam práticas de profunda meritocracia social. Temos políticos, empresas, instituições que no seu dia a dia contribuem para uma maior precariedade e pobreza social (com o pagamento de salário baixos ou mesmo situações de eminente exploração laboral), ou com um conduta ecológica duvidosa, mas na altura de natal (e às vezes não só) surgem como os supra-sumos da beneficência e da “ajuda”. As campanhas “causa maior” e da “Leopoldina” são um exemplo incontornável. Ou seja, são empresas multinacionais, ou grandes superfícies, que se aliam a causas ou instituições de acção social ou ambiental mas no seu dia a dia praticam relações comerciais que lesam ou até eliminam comercialmente os pequenos e médios produtores (conduzindo-os muitas vezes à mesma pobreza que se gabam de ajudar a combater) ou têm uma atitude socialmente e ambientalmente bastante irresponsável, pois muitas vezes tudo aquilo que buscam é: o maior lucro possível ao menor custo possível.

Isto tudo para dizer que sim, acredito bastante no potencial do ser humano para fazer o bem. A nível individual temos exemplos extraordinários de indivíduos que isoladamente foram capazes de fazer coisas maravilhosas em prol do bem comum. E muitas vezes, para não dizer a maior parte das vezes, eles vivem no mais perfeito anonimato. Eles podem ser o seu vizinho do lado, o amigo da rede social, o jovem anónimo da escola do seu filho. Eles são milhares, milhões, e é graças a eles que todos os dias, em cada pequeno pedaço deste nosso maravilhoso planeta azul, mesmo numa época tão difícil e de esgotamento de um sistema, há magia e milagres a acontecer. Há “humanismo” naquilo que “humano” tem de melhor e mais positivo.

Acredito imenso no trabalho de muitas organizações governamentais e associações que às vezes com nada conseguem fazer quase tudo. Ao mesmo tempo que tantas e tantas vezes governos e entidades públicas, ou empresas e accionistas multi-milionários, com tudo mais não conseguem fazer do que nada. Ou então simplesmente desperdiçar e parasitar recursos que deveriam ser usados para o benefício comum de todos (um exemplo disso é o dinheiro que o nosso governo desperdiça a pagar mil e uma mordomias a gestores ou funcionários do aparelho de estado, ao mesmo tempo que usurpa, por exemplo, metade do subsídio de natal a milhares de trabalhadores que vivem num constante “tentar remediar”.)

Hoje em dia temos que ter muito cuidado nas nossas análises, percepções e visões da “realidade” (que hoje em dia é tão estruturada, por exemplo, pelos próprios meios de comunicação social, eles próprios tornados empresas de “entretenimento” e de venda de conteúdos) pois nem tudo o que parece é. E por vezes nem tudo o que é parece. E outra vezes aquilo que parece é exactamente o que é, se tivermos uma boa capacidade de estar atentos para compreendermos os fenómenos em toda a sua amplitude e profundidade.

Em suma: o voluntariado, muito mais do que acções esporádicas que muitas vezes mais não servem do que mitigar a nossa inércia quotidiana e indiferença face aos problemas e desafios de fundo da nossa sociedade, deverá passar por uma atitude cívica comprometida que se reflecte em todos os nossos actos e gestos do dia-a-dia. Como, onde e a quem comprar? O que realmente comprar ou não? Como e onde “investir” o nosso tempo … Que conteúdos consumir? etc. .

Ser voluntariado, ou activista social, é um estado de não resignação construtiva de querer “ir mais além” e de buscar reais alternativas a um sistema e a modelos de organização social que são evidentemente e cronicamente injustos e cruéis. (Que importa os senhores do Jet7 organizarem uma festa de beneficência – para exibirem os seus vestidos e penteados milionários – ao mesmo tempo que nas suas empresas ou aparelhos da burocracia estatal semeiam a pobreza, a exclusão e a destruição no nosso património natural e cultural? Que importa andarmos quase todos a sonhar ser iguais ou ter uma vida como eles?).

Ser voluntário é olhar para o que “está mal”, perceber porque realmente está mal (e muitas vezes somos nós próprios que alimentamos essas situações ou sistemas) e sobretudo ser capaz de perceber “quem” é que está realmente mal … e dar tudo por tudo, às vezes mais do que isso, para que à escala da nossa dimensão humana … as coisas, e sobretudo os seres, possam simplesmente estar bem, ou pelo menos um pouco melhor …

Nessa medida considero que “ser voluntário” ou activista (a palavra “acção” é simplesmente determinante) nunca é um processo acabado. É algo que se vai tentando ser e aprender durante toda a vida. Felizmente temos exemplos muito inspiradores a seguir para nos darem coragem. Felizmente temos também muito maus exemplos de fachada para nos ajudarem a decidir por onde não “devemos” ir. Quer uns, quer outros, têm esse tremendo potencial de nos serem úteis nessa caminhada rumo a uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária. Rumo a um planeta mais sustentável onde saibamos viver de facto em harmonia com a ecologia dos diversos ecossistemas do planeta (algo que será simplesmente impossível de alcançar num sistema capitalista em que ao invés de aprendermos a viver com o que temos, e a utilizar com respeito e moderação o que temos, somos incentivados a buscar sempre mais e a desenvolvermos quase patologicamente novas necessidades e desejos cronicamente insaciáveis).

Por vezes algumas pessoas dizem-me que não sabem como ajudar ou como poderiam viver de forma diferente. Ou seja, quais são as alternativas?

As alternativas não sou eu, nem o Economista A, ou Doutor B, ou Mestre C que as tem. Todos as temos e ninguém as tem. As alternativas são as que desvendarmos nessa caminhada, desde logo interior, rumo, antes de tudo o mais, ao sermos o melhor de nós próprios. Não a sermos melhor que os outros ou a termos mais do que os outros. Sermos o melhor de nós próprios sendo o melhor que pudermos ser para os outros. E isso de ser melhor, vezes e vezes sem conta, não é só “fazer festinhas”. Também é, e há momentos em que tudo o que podemos dar de melhor é um abraço (grátis ;O), mas também há momentos em que o melhor que podemos fazer por alguém é dar-lhe um grito na hora certa. E, sobretudo, estarmos “vigilantes” para podermos dar os muitos gritos, nas muitas horas certas, que nós próprios precisamos de dar e escutar. “Temos um mundo novo nos nossos corações” [2] e às vezes tudo o que precisamos, para encontrar um verdadeiro sentido para nossa existência, nomeadamente através da forma como contribuímos para um mundo melhor para tod@s, é precisamente “escutar aquilo que de mais profundo o nosso coração tem para nos dizer”. E é infinito tudo aquilo que nós “recebemos” quando damos verdadeiramente do fundo do nosso coração.

É difícil? É, sem dúvida, mas temos todo o resto da nossa vida (que é tudo o que realmente temos nesse estado primordial de realmente nada possuirmos) para tentar e descobrir. E porque não começar … agora?

Como? Não sabe, bem no fundo do seu coração, como o fazer?

Pedro Jorge Pereira

Formador e Activista Eco-Social

[1] Wikipedia – A Encilcopédia Livre (2011). Trabalho Voluntário. [Em linha]. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Voluntariado>. [Consultado em 15/07/2011]

[2] Durutti