Friday, April 06, 2012

O Poder – um dos mais perigosos mecanismos de “corrupção” dos valores e da ética humana, numa perspectiva da ES – Ecologia do Ser

O Poder – um dos mais perigosos mecanismos de “corrupção” dos valores e da ética humana, numa perspectiva da ES – Ecologia do Ser




“O mundo é um lugar perigoso para viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.” Albert Einsten


Chomsky [1] afirmou (creio que era mais ou menos esta a ideia) que as acções humanas, os valores e a personalidade “do indivíduo” são o reflexo, por um lado, dos valores e cultura da sociedade onde vive e “cresce” e, por outro lado, das suas próprias opções. É sempre difícil conseguir determinar com exactidão qual factor é mais preponderante na forma como as acções e atitudes são tomadas.

De certa forma, é assustador pensar no tremendo potencial destrutivo contido no ser humano. Por vezes com uma relativamente ligeira alteração de contexto social temos indivíduos, até então aparentemente pacíficos, a cometer atrocidades como tortura, violações, homicídios.

Como é que, por exemplo, com uma alteração do contexto político tivemos milhares de cidadãos a perseguir, matar, saquear os mesmos cidadãos de raça judia com quem viviam muitas vezes, até então, pacificamente lado a lado?

Temos por referência a Alemanha nazi mas a perseguição instigada pelos nazis sucedeu na quase totalidade dos países ocupados pelas tropas germânicas, e muitas vezes praticada pelos próprios habitantes locais. Mesmo em Portugal, na idade média, em episódios pouco falados nas aulas de história, houve episódios hediondos de perseguição e massacre.

De uma forma muitos simples podemos afirmar que o ser humano possui pois um tremendo potencial quer para fazer o mal, quer para fazer o bem. Sendo que as suas opções são pois, e em larga medida, quer condicionadas pelo seu contexto social, quer determinadas pelo seu próprio arbítrio.

A “pressão” e influência do grupo é, no entanto, extremamente poderosa. Somos seres sociais e tendemos a não suportar sentirmo-nos excluídos ou segregados. Quase não existe maior temor para o indivíduo que vive e quer viver em sociedade do que o de se sentir excluído, como não fazendo parte da “tribo”. Vivemos em sociedades estruturadas em torno do “individualismo” mas nem por isso somos imunes, bem pelo contrário, a essa premissa quase fundamental: Queremos fazer parte da tribo.

Assim sendo, muitas vezes, estamos dispostos a quase tudo para o conseguir. É mais “normal” tentarmos adaptar-nos e comportar de forma a podermos fazer parte do grupo (assimilando e reproduzindo comportamentos, padrões, rituais) do que auto-excluírmos-nos do mesmo derivado de algum tipo de, por assim dizer, objecção de consciência.

Por outras palavras, mesmo que em certas situações o “preço” a pagar para pertencer ao grupo seja bastante elevado, nós estamos dispostos a esse esforço em prol da nossa profunda vontade ou necessidade de pertença.

Isso significa que, por exemplo, na Alemanha nazi (como poderíamos utilizar para exemplificar qualquer outro contexto de perseguição étnica, racial, sexual, etc.) num grupo de vinte nazis que deambulavam à caça de vítimas para espancar, humilhar, torturar até poderíamos ter, digamos, dez indivíduos que poderiam sentir alguma objecção de qualquer ordem em fazê-lo, mas mesmo assim, provavelmente, optariam por o fazer de forma a não se sentirem excluídos do grupo.

Reflectirmos sobre esta questão, e chegarmos um pouco a esta conclusão, causar-nos-á provavelmente algum desconforto … é uma ideia verdadeira mas também verdadeiramente assustadora.

Então, o que fazermos para que a ética e a moral possam prevalecer?

Bom, uma possível resposta não será certamente fácil ou linear. Em certa medida o ser humano é um ser complexo e repleto de interrogações.

Há sem dúvida a componente valorativa das sociedades humanas, aquilo que são os seus padrões culturais, valores e, sobretudo, a sua ética. À partida quanto mais “evoluídos” (com tudo o que de subjectivo a expressão “evoluído” possa ter) forem os padrões morais e éticos de uma determinada sociedade, em princípio, mais evoluídos serão também os indivíduos que dela fazem parte.

Actualmente pode-se afirmar que determinados valores se sobrepõem em certa medida à própria ética e moral. Vivemos numa sociedade profundamente materialista, competitiva e meritocrática. Profundamente individualista também.

Nesse sentido uma grande parte dos indivíduos que fazem parte da nossa sociedade têm por principal prioridade o atingir de um nível de conforto material elevado, um elevado estatuto social e por vezes não “olham a meios” (nem fins) para o fazer.

Uma grande parte daquilo que é a nossa realidade social e económica actual é bastante determinada por um conjunto muito restrito de determinadas corporações multinacionais (os lucros de várias delas são superiores ao PIB de diversos países juntos). E no mundo corporativo existe, acima de tudo, e antes de tudo, uma velha e principal máxima: o maior lucro possível ao menor custo possível. Não nos vamos debruçar nesta reflexão sobre o que isso implica actualmente mas podemos afirmar, por exemplo, que os próprios mecanismos de participação e funcionamento democrático se encontram em larga medida, e cada vez mais, limitados pelos próprios mecanismos de poder e influência corporativos.

E por falar em poder …vamos agora debruçar-nos sobre o eixo principal desta reflexão. O poder, ou melhor, os “mecanismos do poder”, sobretudo a dualidade dominação – subjugação, encontram-se imbuídos em quase todas as relações humanas. Relações, de resto, da mais variada ordem. Estamos portanto a referir-nos a relações familiares, amorosas, pessoais, laborais, sociais, etc. No fundo a praticamente todos os diferentes tipos de relações existentes.

Por aí podemos já, de alguma forma, percepcionar a importância que a observação e consciência crítica sobre esses mecanismos adquire. De uma forma geral pode-se sem dúvida afirmar que essa consciência e capacidade de observação é bastante reduzida, senão esses mecanismos não seriam talvez tão poderosos e determinantes no essencial da maior parte das relações.

Creio que não temos muito bem noção do que isso significa mas o poder trazido por uma determinada posição “privilegiada” e/ou de dominação sobre outro(s) indivíduo(s) e/ou ser(es) tem um tremendo potencial de se traduzir nos nossos comportamentos e atitudes de uma forma que pode mesmo chegar a situações extremas de violência. Dito por outras palavras: de trazer à superfície o que de pior existe em nós.

Basta observarmos a nossa sociedade e relações para encontrarmos de uma forma bastante profusa exemplos disso mesmo. Na verdade, e não obstante a profunda hierarquização da nossa sociedade, podemos afirmar que essas situações ocorrem aos diferentes níveis hierárquicos sendo que, vezes sem contra, aqueles que são submetidos a situações de opressão e violência diversa por parte de outro(s) que se encontram hierarquicamente em níveis superiores acabam, também por sua vez, por reproduzir essas mesmas situações sobre outro(s) que se encontram em níveis hierárquicos ditos inferiores. Sendo que, por vezes, fazem-no com ainda mais violência e agressividade. O que faria sentido seria que por conhecerem bem essas formas de opressão, por serem vítimas delas, fossem especialmente sensíveis ao seu carácter negativo e violento. Faria sentido que fossem os primeiros a repudiá-las. No entanto o que acontece frequentemente é precisamente o oposto, e assim prosseguimos enquanto indivíduos e sociedade num ciclo doentio de opressão e agressão.

A ética e a moral são pedras basilares do “edifício social”. São elas que permitem, de alguma forma, mitigar os comportamentos sociais mais perniciosos e condenáveis que são, simplificando, aqueles que se traduzem nalgum tipo de violência ou desrespeito pela liberdade e bem-estar do próximo.

É nesse sentido que os valores éticos adquirem um papel fundamental no desenvolvimento civilizacional da sociedade e pessoal dos indivíduos.

São a ética e a moral de uma determinada sociedade que retiram ou atribuem legitimidade a determinado acto ou acção. Se há actos que são de forma consensual socialmente reprováveis, existem outros em torno dos quais ocorre uma profunda discussão e dificuldade de consenso (já para não falarmos das óbvias oscilações geográficas e culturais). Isso é perfeitamente normal e significa somente que os valores éticos e morais de uma determinada sociedade não são estanques e se encontram num processo de constante evolução. Tendencialmente e idealmente essa evolução deveria ser num sentido positivo, ou seja, de valorização e protecção do bem-estar de todos os seres.

Pode-se dizer de uma forma geral que a evolução tem sido de facto positiva. É importante recordar, só a título de exemplo, que o direito de voto por parte das mulheres foi uma conquista somente, imagina-se, do 25 de Abril! O que traduz bem o grau de atraso e conservadorismo tardio que vigorou em Portugal em boa parte do século XX.

A muitos outros níveis há ainda imenso por conquistar.

Numa perspectiva da Ecologia do Ser “o poder” é um mecanismo por inerência quase sempre negativo e que possui um impacto social e humano negativo, se estivermos a pensar numa estruturação equilibrada das relações humanas e sociais. Nesse sentido o caminho apontado é o um constante questionamento das relações profundamente hierarquizadas que ocorrem na nossa sociedade. Não é nada de propriamente inédito e novo, é simplesmente o colocar em prática de princípios proclamados há poucos séculos atrás de “Igualdade e fraternidade”. Não num sentido demasiado abstracto ou genérico mas num sentido profundamente prático e aplicado à escala de praticamente todas as relações que nos definem e estruturam enquanto seres e, por inerência, enquanto sociedade: amorosas, familiares, laborais, sociais, etc.

Não é uma negação de que possam existir diferentes papeis e níveis de protagonismo, nomeadamente diferentes capacidade de liderança e iniciativa. Simplesmente isso pode surgir NATURALMENTE de relações sociais e humanas equilibradas e nunca pela imposição de um determinado estatuto ou papel hierarquicamente superior.

Toda esta reflexão, que de um ponto de vista prático pode ser aplicada e desenvolvida relativamente a inúmeros contextos (que provavelmente ficarão para outras jornadas de reflexão), neste caso tem como ponto de referência primordial uma prática recente que tem vindo e proliferar (como várias outras pragas) no meio estudantil nacional:

As praxes académicas.

Um dos aspectos mais surpreendentes prende-se com a forma como temos vindo a viver e conviver, sem qualquer processo de questionamento, com essas práticas e rituais.

Poderá parecer extremo comparar por exemplo a praxe académica a muitas outras práticas de opressão e humilhação do ser considerado “inferior” que ocorrem infelizmente um pouco por todo o mundo, e Portugal não é excepção. Poderá parecer extremo comparar a praxe académica em Portugal por exemplo à opressão e submissão da “mulher” nos países islâmicos, particularmente nos mais fundamentalistas.

Poderá de facto … mas o cerne da questão é que o mecanismo (i)moral que tem por base possui inúmeras semelhanças. Os contextos sociais e culturais são bastante diferentes o que permite ainda condicionar a forma como esses mecanismos se exprimem. Mas os mecanismos, a prepotência de um perante o outro, a fétida necessidade de rebaixar e destituir o outro de direitos (por vezes mais elementares) tem porventura mais de semelhança do que de diferença.

A praxe pode parecer somente um jogo, uma brincadeira. Mas parece-o porque temos um contexto moral mais amplo que considera várias práticas e formas de manifestação praxista ilegais, como que estando para “além de um limite” ético que nem a praxe poderá transpor. O que não é sempre uma garantia que assim suceda. Sucederam já (e continuam a suceder) inúmeros casos graves de ofensas à própria integridade física de alguns “caloiros”. E isto são os casos que se tornaram conhecidos ou em que houve coragem e capacidade de denúncia. A pressão do “grupo” é tremenda, e muitos caloiros estão dispostos a muito, muitas vezes a quase tudo, simplesmente para não se sentirem marginalizados e excluídos.

A praxe traz, sem qualquer dúvida, ao de cima o pior que existe nos indivíduos que a praticam e defendem. Veja-se as expressões de agressividade, os mórbidos rituais de humilhação e submissão, a agregação do grupo de violentadores em torno do rebaixamento das vítimas.

A praxe pode ser integração, divertimento, um ritual?

Poderia ser se não fosse a praxe … praxe. Se em vez da praxe houvesse uma integração não hierarquizada e não baseada na submissão do outro. Mais uma vez a questão essencial é: o mecanismo que tem por base.

Quando vejo “a praxe” a imagem para a qual me sinto remetido é muito mais a de um campo de concentração nazi, com os carcereiros em seus uniformes negros, com as vítimas em seus uniformes que não têm senão o intuito de os destituir da sua individualidade e humanidade, respeito até, numa evidente relação de opressão/humilhação – submissão.

Podemos pensar que são muito diferentes as repercussões de uma relação “Soldado da Gestapo” e “Judeu” e a de uma relação “Doutor” e “Caloiro” … dado que na primeira situação estamos a falar de uma situação limite de pleno desrespeito e violentação do valor da vida humana. Sim, são diferentes e os graus de implicação têm de facto diferenças. Mas serão as diferenças assim tão acentuadas? Será assim tão inócuo permitirmos e tolerarmos moralmente a existência de uma prática tão desprovida de sentido maior? Será no fundo o mecanismo base assim tão diferente?

Muito mais haveria a dizer ou reflectir. Muito mais fica por dizer. Acima de tudo, talvez fosse importante lançarmos uma verdadeira e profunda reflexão sobre as bases morais e éticas da nossa sociedade e pensarmos em que direcção pretendemos de facto evoluir. E que contributo realidades como a praxe de facto nos dão.

Pessoalmente sinto uma tremenda desilusão com o papel que a formação universitária dos jovens possui ao nível da formação do seu carácter ético e cívico. Existem felizmente (e talvez muitas) bonitas excepções. Mas existem infelizmente muitas (talvez bem mais que as anteriores) não excepções. E existem situações como a praxe que me parece contribuir, sem grandes margens de dúvida, para o despoletar daquilo que existe de mais negativo e até perigoso na essência humana.

Não é fácil colocar em causa uma realidade que é actualmente considerada quase intrínseca ao meio académico e de uma forma geral tida como tão inócua.

Ainda me recordo do papel que os jovens estudantes universitários tiveram na luta pelos ideais cívicos e democráticos um pouco por todo o mundo (no Portugal fascista também).

A praxe parece-me uma tradição nos antípodas dessa luta pela emancipação da liberdade individual e pelos direitos humanos. É sintomática, a meu ver, de um enorme vazio e ausência de sentido que assola uma boa parte dos jovens da nossa sociedade.

Consigo imaginar mil e uma formas desses mesmos jovens darem outro sentido e utilidade à sua vida e à massa crítica que constituem ou deviam constituir. Estamos numa época de graves problemas ecológicos, de ataque aberto aos direitos e garantias humanas e sociais, e existe uma enorme carência de jovens, em quantidade e qualidade, capazes de se dedicarem de corpo e alma a essas (e outras) nobres causas. Existe vida para além dos rituais praxistas, existe vida para além do passeio no shopping, do telemóvel da última geração, ou da embriaguez. Existe, ou pelo menos deveria existir. E é esse o contributo que a Ecologia do Ser pretende dar.

Não está em causa o direito dos jovens se divertirem, de fazerem um ou outra coisa mais “doida” … mas acima de tudo está em causa todo o belo potencial que possuem para serem melhores seres humanos e para serem capazes de contribuir construtivamente para uma sociedade bem melhor. Não é pena vermos esse enorme potencial desperdiçado? Não é pena vermos o tremendo potencial de tempo, energia e espírito de grupo que poderia (e deveria) ser usado em causas realmente úteis e belas ser simplesmente desperdiçado em rituais e tradições vazias?

Pense bem nisso, e depois, talvez, dê-me a resposta.

Abraços fraternos. Pelo bem de todos os seres.


Pedro Jorge Pereira – Facilitador e dinamizador da ES - “Ecologia do Ser”

ecotopia2012@gmail.com

93 4476236


Próximas oficinas da ES – Ecologia do Ser

25 de Maio de 2012, 6ªfeira, Spaso Zen – Sessão Informativa/Fórum

26 de Maio de 2012, Sábado, Spaso Zen – Oficina prática ES


[1] Wikipedia – A Encilcopédia Livre (2012). Noam Chomsky. [Em linha]. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Noam_chomsky>. [Consultado em 25/03/2012]

[2] A imagem utilizada é a “capa” do filme “Praxis” de Bruno Morães Cabral, um excelente documentário sobre o fenómeno da Praxe. Informação sobre o Documentário e entrevista ao realizador disponível em: [Em linha]. < http://p3.publico.pt/cultura/filmes/2098/praxe-o-desejo-de-obedecer-hoje-para-comandar-amanha >. [Consultado em 05/04/2012]

[3] Revisão e correcção ortográfica por Cristina Gomes.

[4] O autor escreve (dado que também pensa) pela gramática anterior ao designado “Novo Acordo Ortográfico”, cuja existência, de resto, considera pouco menos que inútil

1 comment:

Ricardo Goncalves said...

Parabéns pelo brilhante artigo de opinião. Não é comum ver opiniões esclarecidas quando se trata deste tema.