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Friday, July 15, 2011

O princípio do fim da era pós-industrial









O princípio do fim da era pós-industrial


“Quem tem poucas coisas considera-se pobre e isso fá-lo sentir-se triste. Não há Papalagui algum que seja capaz de cantar e mostrar um olhar feliz se apenas possuir, como nós, uma esteira ” [1]


Prados verdejantes preenchendo o espaço até onde a vista alcança. Lavadeiras esfregando e curando as roupas nas margens do rio sereno. Crianças brincando em plena Natureza sem qualquer preocupação com o humor mutável do tempo. Lavradores transportando, em carroças puxadas por pujantes bois, as colheitas da estação. Barcos de pescadores remando no rio em busca do peixe que abunda e nada ao sabor das correntes.

Em todo este cenário o Rio Leça desempenha o papel principal. É em torno dele que se organiza, faz e sonha a vida. É a sua cadência e ritmos, marés e correntes, a lei mais suprema de toda a população ribeirinha. É o seu leito como o sangue que no corpo irriga a vida.

Mas este é o cenário de há cerca de 50 anos atrás. Sim, há cerca de 50 anos era assim a vida das populações de Matosinhos e Leça.

Cinquenta anos em que uma revolução silenciosa mas acutilante, subtil mas abrupta, chegou às águas do Rio Leça. Essa revolução foi chamada de diferentes formas.

Por conveniência chamaram-lhe “progresso”. Outros com um pouco mais de precisão histórica chamaram-lhe “industrialização”. Outros não lhe chamaram nada … foi simplesmente o que “naturalmente” aconteceu em quase todo o lado no nosso país e mesmo, ainda que em tempos diferentes, a uma escala praticamente global.

Num fenómeno de contornos amplos e complexos, de infindáveis possibilidades de estudo e reflexão, o que basicamente se pode dizer em relação ao Rio Leça (caso de estudo nesta reflexão), assim como a todo o cenário e habitat envolvente, é que … praticamente morreu. Foi o preço (ou uma parte dessa quantia incomensurável) a pagar para nos podermos ter tornado no que somos hoje em dia: Uma sociedade industrializada e capitalista global.

Dizem-nos que a vida era pobre, que a vida era dura, que a pobreza proliferava. E tudo isso é em grande medida verdade.

Dizem-nos que somos mais felizes, que a vida é mais fácil, que a riqueza se multiplicou. E tudo isso, em muitos aspectos, é em grande medida mentira.

Dizem-nos que temos hoje em dia maior qualidade de vida, mas afinal como é que se pode definir o que a qualidade de vida é realmente?

Será que todas as vicissitudes que a “vida moderna” nos trouxe estão inevitavelmente ligadas? É difícil conseguirmos ver, de uma forma muito objectiva, em que medida todas estas transformações contribuíram para que possamos viver hoje (os que ainda vivemos) melhor do que há 50 anos atrás.

Eu tive os confortos da vida moderna que os meus Pais não tiveram. Pude com relativa facilidade (naquilo que é uma facilidade, para cada vez mais famílias, mais difícil) ter acesso a educação superior. Não tenho que trabalhar de sol a sol para poder ter o suficiente para me alimentar.

Por outro lado foi já morto e sem vida que sempre conheci o Leça. Cresci sem correr pelos prados onde o meu Pai correu. Nunca pude sentir o cheiro vivo da terra e dos elementos (agora sufocados pelo cimento e betão da cidade que explodiu em direcção ao céu e ao horizonte). Muito menos pude alguma vez mergulhar ou sequer molhar os pés no Rio Leça (a não ser bem perto da nascente ainda impoluta) sem estar perto de cometer um acto semi-suicida ou de atentado à minha própria saúde.

O indivíduo moderno possui hoje (aquele que faz parte dessa elite planetária dos que de facto possuem) o acesso a uma panóplia de bens e serviços talvez sem precedentes na história da humanidade. Contudo não creio que essa profusão materialista se tenha, de uma forma geral, traduzido numa maior felicidade ou numa vida mais significativa e satisfatória para uma grande parte das pessoas. Na verdade o consumo de anti-depressivos nunca foi tão elevado. Ao ponto de em alguns países se colocar já em causa a qualidade da água de abastecimento público devido à quantidade de substâncias libertadas por esses fármacos quando ingeridas pelos indivíduos e depois expelidas através da urina.

À parte de toda a relatividade que a questão (ou questões) contém, um facto parece-me evidente e inequívoco: definir a qualidade de vida em termos daquilo que cada indivíduo possui é profundamente errado. A satisfação de determinadas necessidades (e o problema é que assim que umas se encontram satisfeitas logo outras tantas surgem para manter o ratinho consumidor a girar na grande roda do consumo desenfreado), o acesso a determinados bens, pode obviamente contribuir bastante para o bem-estar dos indivíduos. Se nos podemos alimentar bem, ter acesso a uma boa educação, usufruir de bons cuidados de higiene e saúde e se residimos uma zona agradável, limpa e com boas condições ambientais temos, em parte, todas as condições para ter uma boa qualidade de vida. No entanto o conceito de “qualidade de vida” é bem mais amplo do que isso. Há toda uma profusão de factores, condicionantes e dimensões individuais e sociais que são, ou deveriam ser, determinantes para definir os rumos a percorrer por uma determinada sociedade ou civilização no sentido de proporcionar uma boa qualidade de vida a todos os seus indivíduos. Há claro uma importante dimensão “material”, por assim dizer, mas há, ou deveria haver, uma dimensão espiritual ou, se quisermos, emocional ou psicológica.

A maior parte das grandes correntes ideológicas ocupam-se somente da vertente material das questões, nomeadamente em termos de produção de bens. Mas no essencial, por exemplo toda a sociedade consumista capitalista, baseia-se na criação de produtos que visam substituir o vazio espiritual e emocional que essa própria sociedade tem vindo a criar.

Por exemplo. Um dos valores primordiais do sistema capitalista é o culto do individualismo. Mas depois, em virtude do vazio gerado por relações sociais vazias, frias, impessoais, competitivas ou alicerçadas no estatuto, temos de recorrer ao consumo de toda uma profusão de produtos para nos “auto-compensarmos” emocionalmente. É a valorização do que se “tem” em detrimento do que se “é”. Do “ter” em vez do “ser”.

Voltando ao Rio Leça, que está longe de ainda o ser.

O Rio Leça é “meramente” um exemplo para enunciar aquilo que aconteceu por todo o nosso país num período histórico relativamente reduzido:

O nosso ambiente, as nossas paisagens, viram-se violentamente despidas de quase toda a sua rusticidade, ruralidade e … Natureza.

As cidades transformaram-se numa geografia “morta”, onde já nada se produz, já nada cresce a não ser o cimento e o betão. As cidades encheram-se de hordas e hordas de gentes fugindo da miséria do campo mas esvaziaram-se de … humanidade. Tem-se vindo a exterminar quase tudo o que ainda subsiste de “natural”, de “rural” e nem os próprios espaços ditos verdes o são verdadeiramente (numa perspectiva ecológica, em geral, pouco ou nada recriam de um habitat realmente natural).

As nossas paisagens descaracterizaram-se ao ponto de em tantos e tantos sítios já tão pouco sobrar da sua autenticidade.

Os próprios rios …Quase todos os rios foram represados por colossais barragens de betão que lhes retiraram a força e vigor natural de um rio … e um dos últimos rios selvagens que existia ainda em Portugal, para sabermos o que é verdadeiramente e autenticamente um rio … está já a ser aniquilado para produzir a energia que não queremos aprender a consumir com a moderação que a Natureza nos impõe.

“Earth provides enough to satisfy every man's need, but not every man's greed”

Na Terra existe o suficiente para as necessidades de todos os seres humanos mas não existe o suficiente para a sua ganância, dizia Mahatma Gandhi, naquilo que pode resumir de forma tão perfeita aquilo que é o essencial da questão.

Será que toda esta profusão materialista de carácter essencialmente individualista se tem vindo a traduzir numa maior felicidade ou bem-estar por parte dos indivíduos? Será que o estilo de vida moderno é um caminho credível para uma real felicidade e sentido de vida? Será que se pode falar, acima de tudo, de “qualidade de vida”?

Antes de tudo o mais talvez seja de enorme pertinência reflectir sobre o real custo, ou seja, a factura em termos ambientais, sociais e económicos que o sistema produtivo actual (orientado nada mais, nada menos, para o desperdício) implica.

Vivemos na “era do descartável” o que significa que a esmagadora maioria daquilo que é produzido é-o para somente uma utilização (nas vezes em que chega sequer a ser utilizado) e em muitos casos para ser usado por breves segundos. [2]

Não pretende toda esta reflexão ser uma apologia de “regresso ao passado”, de total renúncia àquilo que somos e nos tornamos enquanto projecto de civilização. Creio essencialmente que urge fazer aquilo que nunca foi verdadeiramente feito: Uma profunda reflexão.

Reflectirmos verdadeiramente no caminho que queremos e, sobretudo, podemos seguir. Creio que este caminho de plena destruição ecológica é, por inerência, comprometedor de quaisquer perspectivas de sobrevivência planetária, como de resto se está a manifestar nos diversos fenómenos e crises ecológicas, sociais e económicas actuais.

Não creio, sobretudo, que para ganharmos tudo aquilo que supostamente ganhamos tivéssemos que perder tudo aquilo que perdemos, e que os nossos pais ainda tiveram.

Não creio que o Rio Leça tivesse que ter sido assassinado para nos podermos ter tornado no que somos actualmente. E perdemos tanto!

Não creio que nenhuma civilização se possa desenvolver e, antes de tudo, encontrar e definir enquanto civilização, desprovida das suas raízes, identidade e essência. E a nossa essência depende sempre da nossa relação umbilical com a Mãe Natureza, com os ciclos e ritmos da terra. A nossa qualidade de vida depende, em larga medida, mais do que qualquer indicador sócio-económico, da forma como formos capazes de nos integrar na paisagem que herdamos, na forma como somos capazes, para viver, de manter vivos, funcionais e plenos de vitalidade todos os elementos vivos da própria paisagem Natural. Dito de outra forma: de mantermos os ecossistemas vivos e saudáveis. E por vezes são de facto os países que em certos aspectos revelam mais essa capacidade (os países nórdicos por exemplo) os que possuem, simultaneamente, melhores resultados em termos de índices de desenvolvimento humano, entre outros indicadores sócio-económicos.

A água é essencial à vida. Mas tornamos o Leça num esgoto e a água chega-nos agora de longe. Para além disso, tem que ser impregnada de toda uma série de substâncias químicas, lixívias nomeadamente, para lhe podermos chamar algo como potável.

A terra e o alimento que ela produz é essencial para algo tão básico como nos alimentarmos. Mas as hortas e terras agrícolas outrora férteis e abundantes deram lugar à insana miragem da especulação imobiliária desenfreada. E assim ganhou Matosinhos e Leça em cimento e altura aquilo que perdeu, e tanto, de ligação com a própria terra.

Teria que ter sido assim? Não podia ter sido de outra forma? Não podemos negar a nossa história mas muito menos a responsabilidade que temos em cada momento histórico das acções e decisões que tomamos enquanto sociedade e projecto de civilização. Seja movidos pela consciência, pela necessidade ou simplesmente pelo sacro-santo lucro, a verdade é que há sempre algo que de uma forma ou outra nos move, as circunstâncias não são um mero reflexo de condicionantes históricas transcendentes.

Não sei se algum dia o meu Pai voltará a ver o Leça “a respirar”. Não sei sequer se o meu filho terá algum dia esse privilégio agora quase utópico. Mas acredito convictamente que temos que reencontrar as nossas raízes, que voltar à terra, se queremos que a espécie humana e muitas outras espécies animais e vegetais - que estamos de forma selvagem a destruir - continuem a poder viver neste planeta.

Acredito convictamente que a qualidade de vida se define pela forma como somos capazes de nos integrar nos ecossistemas ecológicos naturais de forma harmoniosa, humilde e mantendo vivos os seus elementos e dinâmicas naturais. Creio que se define ainda pela forma como somos capazes de construir sociedades norteadas pela busca de um bem-estar comum, pela construção de relações sociais providas de sentido e profundidade, e pela existência de uma forte espírito cooperativo de fraternidade e acção solidária.

Creio que o caminho, ou os caminhos, que temos vindo a seguir nesta era industrial não poderiam ser, de forma clara e predominante, mais na direcção oposta.

Só tendo noção desse facto enquanto sociedade, só quando despertarmos do transe consumista, materialista e egoísta em que estamos mergulhados, é que poderemos partir noutras direcções e caminhos, tentando encontrar e reencontrar novos sentidos para a nossa vida social e individual.

Caminhos esses que terão de ser encontrados não nas fórmulas tecnocráticas esgotadas e repetidas até à exaustão (sua e do planeta) mas na capacidade de ousarmos sonhar e semear uma mundo novo, em muitos aspectos mais parecido com aquilo que ele era antes de nos termos deixado industrializar de forma tão exacerbada. Temos imenso a aprender com aquilo que éramos, com aquilo que nos tornamos mas, e ainda mais, com toda a criatividade naquilo que podemos ser enquanto projecto pós-industrial (porquê pós-industrial? Porque não acredito minimamente na viabilidade prática e filosófica de manutenção deste sistema por inerência “insustentável”). Temos imenso a aprender se formos criativos e ousarmos sonhar voltar a tomar banho no Rio Leça. Quando isso acontecer viveremos num habitat capaz de nos proporcionar toda uma qualidade de vida não aferível por qualquer indicador macro-económico mas sobretudo pelos risos dos nossos filhos brincando e chapinhando na água.

Não me parece que o iminente colapso do sistema capitalista industrial (nomeadamente pelo cada vez mais dispendioso acesso àquela que é a sua matéria prima mais fulcral: o petróleo) nos deixe grande margem para fazermos outra coisa que não essa: repensarmos numa nova sociedade pós-carbono e pós-industrial. E há já muitos indivíduos e comunidades criativas e alternativas pelo mundo fora que estão já a fazer dessa reflexão a sua prática e estilo de vida. [3]

Não será que o próprio Leça merece também que façamos esse esforço por ele (e, por inerência, por nós próprios)?


Artigo publicado inicialmente para Barómetro Social:

O princípio do fim da era pós-industrial (I)

http://barometro.com.pt/archives/354

O princípio do fim da era pós-industrial (II)

http://barometro.com.pt/archives/358


[1] Scheurmann, Erich. (2003). “O Papalagui”, Lisboa, Edições Antígona

[2] Beaven, Colin. (Outubro de 2009, 1ªEd.). “Impacto Zero – As aventuras de um cidadão comum que tenta salvar o Planeta”, Carnaxide, Editora Objectiva

[3] Dawson, Jonathan. (Junho de 2010). “Ecoaldeias – Novas Fronteiras para a Sustentabilidade, Águas Santas, Edições Sempre em Pé


Wednesday, September 15, 2010

Uma ecoreflexão sobre a Água

Uma ecoreflexão sobre a Água

Publicado na “Revista Vegetariana nº5”, Edição de Outono 2010

Pedro Jorge Pereira



Já todos ouvimos ou lemos nalgum lado, ou em vários lados, que a água é um bem precioso. No entanto coloca-se a questão de saber em que medida esse dado terá sido suficiente para efectuarmos mudanças realmente profundas no nosso próprio estilo de vida e, particularmente, naquilo que à água diz respeito.

Sendo na verdade um bem “tão valioso”, não deixa de ser paradoxal pensar que é precisamente na água que são lançados a maior parte dos resíduos domésticos e industriais (sobretudo os líquidos) produzidos pela nossa sociedade consumista. Na verdade todo o sistema de tratamento de esgostos é um enorme paradoxo e, porque não dizer, uma tremenda estupidez: Lançam-se na água toneladas e toneladas de resíduos, nomeadamente feses, urina, etc. para depois se terem de gastar milhões e milhões de euros a tentar tornar essa água que se contaminou minimamente “aceitável”. Claro que o dinheiro gasto é apenas um dos aspectos da questão. Raramente os sistemas de tratamento funcionam plenamente e raramente as soluções técnicas tornam possível uma total recuperação da qualidade da água.

Por outro lado não deixa de ser interessante referir que é precisamente a sua imersão na água que torna o processo de decomposição natural por exemplo das fezes demorado e complicado.

Claro que é assustador pensarmos em restruturar completamente todo o sistema de tratamento de esgostos mas de certa forma, ainda que passível de demorar décadas, é uma medida que deveria pelo menos começar a ser pensada se queremos resolver realmente a questão. Já existem diversas soluções, para já ainda de pequena escala, alternativas de sistemas de tratamento de resíduos. As “Casas de Banho Secas” são um óptimo exemplo de uma solução com baixos custos em termos de investimento e com um resultado em termos de tratamento praticamente 100% eficaz. Um site nacional sobre o assunto e que vale a pena visitar encontra-se em:

http://casasdebanhoecologicasportugal.blogspot.com/

Outros sistemas também bem sucedidos recorrem ao tratamento através de plantas que efecutam a depuração das águas e lamas contamiandas. São uma espécie de “pântanos” que, na realidade, constituem-se como um sistema biológico de tratamento de águas residuais.

É também fundamental referir que no que diz respeito aos consumos urbanos, cerca de metade desses consumos (à volta de 40%) prendem-se com o funcionamento das casa sde banho e cerca de 28% (!!! quase 1/3 de todo o consumo) com o autoclismo (1). Também aí o paradigma de consumo não deixa de ser no mínimo questionável se pensarmos que estamos a “desperdiçar” água potável e limpa para enviar os resíduos para os esgotos ao mesmo tempo que as águas ditas “cinzentas”, ou seja, as águas que resultam por exemplo dos banhos e lavagens, poderiam e deveriam perfeitamente ser aproveitadas para esse fim.

De certa forma a questão fundamental é que se continua a utilizar a água numa óptica marcadamente consumista, ou seja, acreditando-se que é um recurso, ou um bem, ilimitado e em relação ao qual não existe a relação de respeito e consciência que deveria existir. É fácil esquecer que a água canalizada é um “luxo” só mais ou menos recentemente adquirido pela maior parte da população portuguesa e que essa água não é de facto um “bem aquirido”. Em larga medida continua ainda a ser um luxo pois só uma parte da população mundial tem acesso a água potável e uma parte ainda menor tem acesso a água canalizada. Considerando os padrões de consumo actuais:

"Em Portugal o consumo médio de água anual num agregado familiar com quatro pessoas é de aproximadamente 180 m3 de água, o equivalente a 15 m3 de água por mês [por agregado ou 3,75m3/mês/pessoa]" (2)

"Cada pessoa com acesso a água da rede pública em Portugal consome, em média, pelo menos 154 litros de água por dia" [cerca 4,6m3/mês/pessoa] (3)

Não é preciso pensar muito para constatar que consumimos demasiada água. A mudança, acima de tudo, tem necessariamente que ser “cultural” e “educacional”. Provavelmente se não fizermos esforços realmente significativos e voluntários tendentes a reduzir os nossos padrões de consumo (também no que à água diz respeito) em breve teremos possivelmente que fazer esses esforços coercivamente, sobretudo devido à escassez e destruição de recursos naturais que o nosso estilo de vida esbanjador está a provocar. Portugal, nomeadamente face às alterações climáticas que infelizmente já se fazem sentir, será previsivelmente uma país muito afectado pela ausência de água dado que uma parte muito substancial do solo nacional encontra-se já numa situação técnica de desertificação. Não obstante, e mais uma vez paradoxalmente, continua-se a aprovar a construção de campos de “golf” e a edificação de “resorts” turísticos com indíces muito elevados de consumo de água precisamente em algumas das áreas mais críticas em termos de carência desta.

Àparte de todos essses aspectos fundamentais, e no que há água diz respeito, há um outro aspecto fundamental que raramente é mencionado ou analisado: O impacto que a nossa alimentação tem em termos de consumo de água, sobretudo se pensarmos numa alimentação não vegetariana.

Só para termos uma pequena ideia, aqui ficam alguns dados que dizem por si só imenso (senão mesmo tudo):

- Actividade responsável por mais da metade de toda a água consumida para todos os fins nos Estados Unidos: Criação de gado

- Número de litros de água necessários, na Califórnia,

para produzir 1kg comestível de:

Tomates: 39
Alface: 39
Batata: 41
Trigo: 42
Cenoura: 56
Maçã: 83
Laranja: 111
Leite: 222
Ovos: 932
Galinha: 1.397
Porco: 2.794
Carne de boi: 8.938


- Quantidade de detritos (fezes nomeadamente) produzidos a cada segundo por animais criados para consumo humano: 125 toneladas (o peso de 15 elefantes africanos adultos)

- Para se produzir cerca de meio quilo de carne bovina são necessários 7,5 kg de cereais, 9500 litros de água e energia, equivalente a quase 4 litros de petróleo.

- Na produção de uma dieta carnívora utilizam-se 48 m litros de água por dia, 2400 litros diários seriam o suficiente para a produção de uma alimentação vegetariana.


A magnitude destes dados é assustadora não é?

O impacto ecológico da produção pecuária é brutal não só em termos de recursos (da quantidade de água) que exige mas também em relação aos detritos produzidos e que, fatalmente, acabam lançados nas águas dos nossos rios e lençois freáticos.

Só para se ter uma pequena ideia da realidade nacional, diga-se que uma das áreas com maior concentração de suíniculturas do país, a região de Leiria, é também uma das áreas que apresenta maiores problemas em termos de poluição fluvial. O rio Liz, por exemplo, encontra-se praticamente contaminado com os detritos resultantes das explorações pecuárias, como podemos ver num artigo muito recente do Público-Ecosfera (4)

A realidade não é muito diferente no que diz respeito a aviários e, sobretudo, explorações bovinas. Para utilizarmos água de forma consicente é fundamental adoptar toda uma série de medidas de poupança e de redução significativa dos consumos, medidas que vão deste a adopção de hábitos de consumo mais saudáveis e equilibrados até à reutilização das águas usadas por exemplo para rega. Mas será que podemos ser “ecológicos” e, ao mesmo tempo, continuar a comer carne, sobretudo nas proporções que esse consumo adquire no nosso mundo dito “desenvolvido”?

Tendo noção do impacto que a produção pecuária aduire em termos de quantidades de água consumida e de detritos produzidos (quer em termos quantitativos, pelo seu volume, quer em termos “qualitativos”, pela grau de dificuldade e custo que o seu tratamento implica) será que nos podemos dar ao luxo de querer poupar água e, ao mesmo tempo, continuar a comer carne sobretudo nas proporções que a grande maioria das pessoas ainda o faz actualmente?

A adopção de um estilo de vida vegetariano, ou pelo menos maioritariamente vegetariano, não é só uma atitude ética positiva para com os animais que são explorados e sacrificados para a “produção” de carne. É também um gesto de respeito para com o próprio Planeta Terra e de protecção dos habitates naturais ameaçados e sacrificados para a produção pecuária. Ao mesmo tempo, evitar a destruição desses habitates é também um gesto de protecção de toda a vida selvagem (fauna e flora) que deles depende. E é importante não esquecer que também a nossa própria vida depende da existência de habitates naturais preservados (florestas que nos fornecem o oxigénio vital à vida, rios com água limpa e saudável, etc.)

Há sempre imenso que podemos fazer e mudar para tornar o nosso estilo de vida mais equilibrado e com um impacto ambiental bem mais pequeno. Uma grande parte dessas acções e mudanças passam, sem qualquer dúvida, pelo nosso prato. Na escolha consicente e informada daquilo que realmente optamos, ou não, por incluir na nossa alimentação.

Uma das formas mais directas de preservar os nossos recursos hídricos é evitando contribuir para algumas das actividades que maior ameaça têm vindo a constituir para esses mesmos recursos, nomeadamente a indústria pecuária e a agricultura industrial, que recorre amiúde a fertilizantes e pesticidas químicos que inevitalmente escorrem para os cursos de água superficiais e subterrâneos.

Agora que já sabes, o que vais escolher para o jantar?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) Planeta Azul – Portal do Ambiente e Sustentabilidade sobre o “Consumo de Água”

http://www.planetazul.pt/edicoes1/planetazul/desenvArtigo.aspx?c=2249&a=15762&r=37

(2) Semanário Labor.pt

http://www.labor.pt/noticia.asp?idEdicao=113&id=5217&idSeccao=1070&Action=noticia

(3) Blog Ambiente e Qualidade de Vida

http://ambientequalvida.blogs.sapo.pt/42283.html

(4) Público – Ecosfera

Poluição já atinge a foz do rio Lis em "níveis preocupantes"

http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1441954