Sunday, February 06, 2011

VISITA à ESCOLA da PONTE em VILA das AVES, 14 de Fevereiro, 2ªfeira,

VISITA à ESCOLA da PONTE em VILA das AVES

14 de Fevereiro, 2ªfeira,

partida de S.Bento: 10:15

partida de Campanhã: 10:20



VISITA à ESCOLA da PONTE em VILA das AVES


Numa altura em que se diz que a Educação, à imagem de quase tudo o resto no país, atravessa uma crise; numa altura em que nem a própria Educação escapa à feroz febre de neoliberalização da sociedade (entenda-se, redução de todos os valores sociais, culturais, ambientais a uma mera lógica economicista); numa altura em que se “concentram” as crianças em mega-agrupamentos, como o próprio nome diz, megalómanos; numa altura em que as crianças são obrigadas a permanecer 90 minutos seguidos fechadas em salas de aulas tantas e tantas vezes frias, cinzentas e enfadonhas; numa altura em que “a escola” continua ainda a ser, tantas vezes, mais um lugar de “formatação”, “domesticação”, de competição do que um lugar onde realmente a criança e os jovens aprendem “a Ser”, que futuro podemos ambicionar para as crianças e jovens portugueses face a um sistema educativo baseado na competição, meritocracia “excludente” e nas ilusórias estatísticas “à la novas oportunidades”?

É possível pensar num modelo educacional diferente? Mais personalizado, humano, cooperativo e, no fundo, mais verdadeiramente educativo?

Não só é possível pensar como é também é possível vê-lo a funcionar na prática num projecto educativo muito especial e único em todo o contexto educativo nacional. Estamos-nos a referir à Escola da Ponte e é para dar a conhecer esse projecto incrivelmente inspirador que vamos organizar, no dia 14 de Fevereiro, 2ªfeira, uma vista guiada pelos próprios alunos da Escola da Ponte.

A saída é às 10h15 de S.Bento, ou 10h20 de Campanhã, até Vila das Aves (Linha de Guimarães).

A chegada a Vila das Aves será por volta das 11h10.

Em princípio o almoço, dado que na escola ainda não existe disponível a opção de alimentação vegetariana, deverá ser numa pizzeria nas imediações da escola, sendo que nesse caso será conveniente indicar a vontade de almoçar ou não nesse local de forma a podermos informar a pizzeria do número de pessoas.

Mais abaixo segue uma descrição mais detalhada sobre a própria Escola da Ponte e do projecto Educativo.

Em perspectiva está esse sonho de muitos pessoas de ajudar a “multiplicar” a Escola da Ponte e “trazê-la” para o Porto (e/ou arredores). Ajudar a fazer essa revolução tão mais importante e primodial do que todas as outras que é a de podermos permitir ás nossas crianças serem verdadeiramente livres e bons cidadãos do mundo.

Para mais informações, inscrições e contactos:


Pedro Jorge Pereira

e-mail: ecotopia2012@gmail.com

934 476 236


Para quem quiser fazer um pouco o “Trabalho de Casa” e saber mais sobre a Escola da Ponte:


Escola da Ponte:

- Jornal dia-a-dia - http://jornal-dia-a-dia.blogspot.com/
- Blog dos Amigos da Ponte - http://amigosdaescoladaponte.blogspot.com/
- Pesquisas livres sobre a Escola - desde a informação mais simples na Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_da_Ponte, ou os vídeos de reportagens - http://ww1.rtp.pt/multimedia/progVideo.php?tvprog=25323&idpod=36549 ou http://www.youtube.com/watch?v=VGGsgcRcVsY&feature=player_embedded#! - e sobre José Pacheco - entre outros, há entrevistas e os artigos publicados, como na Página da Educação, http://www.apagina.pt/?aba=7&user=José Pacheco&mid=2.

A Escola da Ponte

A Escola da Ponte situa-se na Vila das Aves, concelho de Santo Tirso, distrito do Porto.

O edifício principal da escola, modelo P3, é composto por dois pisos e dispõe de um salão polivalente. Com o alargamento ao 2.º Ciclo em 2001/2002, foram anexados dois pavilhões pré-fabricados. Em 2005/2006 a oferta educativa é alargada ao 3. Ciclo do Ensino Básico, contando a partir daí com um novo equipamento (antiga escolinha primária) próximo do edifício P3.

A EBI Aves/S. Tomé de Negrelos – Escola da Ponte, é uma escola com práticas educativas que se afastam do modelo tradicional. Está organizada segundo uma lógica de projecto e de equipa, estruturando-se a partir das interacções entre os seus membros. A sua estrutura organizativa, desde o espaço, ao tempo e ao modo de aprender exige uma maior participação dos alunos tendo como intencionalidade a participação efectiva destes em conjunto com os orientadores educativos, no planeamento das actividades, na sua aprendizagem e na avaliação. Assim, a divisão artificial por anos de escolaridade ou ciclos, deu lugar à organização por Núcleos - existem 3 Núcleos: Iniciação, Consolidação e Aprofundamento. Estes são a primeira instância de organização pedagógica e correspondem a unidades coerentes de aprendizagem e desenvolvimento.

O currículo é articulado em 6 Dimensões fundamentais: Linguística (Língua Portuguesa e Inglesa), Identitária (História e Geografia), Naturalista (Estudo do Meio, Ciências da Natureza e Físico-Química), Lógico - Matemática (Matemática), Artística (Educação Musical, Educação Visual e Tecnológica, Expressão Dramática e Educação Física) e Pessoal e Social (Educação Especial, Desenvolvimento Pessoal e Social Serviços de Psicologia).

Os Orientadores Educativos reúnem-se com os alunos (debates, reuniões de tutoria,..) para planearem o que vão fazer com toda a escola e sozinhos - o Plano da Quinzena - e, a partir desse plano, cada um traça diariamente o seu Plano do Dia. Isto acarreta uma maior participação, autonomia e co-responsabilização de todos os implicados na planificação das aprendizagens e na vida social de toda a escola (também presente nos Debates, Assembleia de Escola e nos múltiplos grupos de responsabilidades em que se organizam).

Os Orientadores Educativos vão acompanhando os alunos de modo diferenciado, tendo em conta as necessidades e especificidade de cada um. Todo o trabalho é realizado em clima de cooperação, não só entre os alunos e orientadores mas também entre pares. Assim, o trabalho cooperativo de professores e o trabalho dos alunos em grupos heterogéneos generaliza-se. Dentro de cada grupo, a gestão dos tempos e espaços permite momentos de trabalho em pequeno grupo, momentos de participação no colectivo, momentos de “ensino mútuo” e momentos de trabalho individual. Pretende-se que desenvolvam um trabalho que valorize a reflexão, a entre-ajuda, a capacidade de análise crítica e a pesquisa.

Os espaços de trabalho disponibilizam diversos recursos, como: livros, dicionários, gramáticas, Internet, vídeos, …de forma a que entendam que existem várias fontes de conhecimento.

Este projecto, assente em valores como a Solidariedade e a Democraticidade, orienta-se por vários princípios que levaram à criação de uma grande diversidade de dispositivos pedagógicos que, no seu conjunto, comportam uma dinâmica de trabalho e promovem uma autonomia responsável e solidária, exercitando permanentemente o uso da palavra como instrumento autónomo da Cidadania.

Os Pais/Encarregados de Educação, à semelhança dos seus filhos e orientadores educativos, estão também fortemente implicados no processo de aprendizagem dos alunos e na direcção da Escola. Os contactos são feitos sempre que necessário, através do professor tutor, que acompanha, orienta e avalia diariamente as actividades realizadas pelos seus tutorados.

A escola disponibiliza actividades de enriquecimento do currículo às famílias que necessitem que os seus filhos tenham um acompanhamento até às 18:00 horas.

Todos os alunos cumprem o mesmo horário entre as 8:30 e as 16:15 horas, assim como todos os professores, não havendo “furos” por ausência de orientadores educativos. A equipa docente é constituída por elementos com formação diversificada (Educadoras de Infância, professores do 1º ciclo, 2º e 3º ciclos), que reúne todas as quartas-feiras e sempre que é necessário para debater problemas da escola, planificar e avaliar o trabalho.

A organização que esta Escola põe em prática inspira uma filosofia inclusiva e cooperativa que se traduz, em aspectos muito simples: todos precisamos de aprender e todos podemos aprender uns com os outros e quem aprende, aprende a seu modo no exercício da Cidadania.

Wednesday, January 26, 2011

Ao Encontro da NATUREZA MÃE Oficina de regresso às Raízes e Mudança, 4 de Fevereiro de 2011, 6ªfeira, 19h00, Escolha Harmoniosa

4 de Fevereiro, 6ªfeira, 19h00

duração aproximada: 2 a 3 horas

ESPAÇO: ESCOLHA HARMONIOSA

Que tristeza pensar que a Natureza fala e o ser humano não a escuta
Victor Hugo

O Ser Humano tem vindo a perder muitas das suas ligações ancestrais com a Terra Mãe, juntamente com tradições, conhecimentos e até identidade. Tem vindo a perder ligação ao ciclos ancestrais, à sabedoria dos rios e montanhas, à energia das plantas e da Terra.

O Ser Humano vive cada vez mais em altas torres de cimento e betão, longe do odor das ervas silvestres, e o seu alimento vem de partes distantes do mundo produzido não se sabe por quem e em que condições (ou não é de todo conveniente saber). O ser Humano olha para os outros filhos da Mãe Terra (das espécies não humanas, e também para os seus semelhantes da sua própria espécie) com arrogância e do alto de toda a sua superioridade que não é senão ilusória e nefasta.

O Ser Humano desumanizou-se vivendo cativo de um ego que busca uma constante e efémera gratificação aparente e superfical, quer no mundo dos bens materiais quer na sociedade das aparências e da ganância de poder. O Ser Humano desumanizou-se e, em muitos casos, é também cada vez menos “ser”.

O Ser Humano tem vindo a perder as suas Raízes, e com elas a sua ligação à Terra Mãe que o nutre, cuida e ama incondicionalmente. Por vivemos cada vez mais em cidades desumanizadas, em habitats cada vez mais artificiais, com um estilo de vida cada vez mais artificial, significa que a Mãe Natureza morreu dentro e for a de nós?

A Oficina de “Ao Encontro da NATUREZA MÃE” é uma viagem sem rumo muito definido (como as curvas sinuosas de um rio) ao encontro e de regresso à TERRA MÃE. Como sentirmos, procurarmos e encontrarmos as nossas raízes primoridais mesmo num contexto de tão acentuadas e abruptas mudanças civilizacionais (muitas vezes, talvez, não na melhor direcção). Não há um porquê, um como, há simplesmente um fluir desse magnífico milagre que é o SER.

Numa primeira parte iremos sobretudo reflectir sobre os caminhos que a nossa civilização se encontra a percorrer e numa segunda parte iremos, sobretudo, reflectir nos caminhos que cada um de nós próprios poderá percorrer para ir mais, no nosso próprio dia-a-dia urbano, ao encontro da Mãe Natureza.

Facilitador: Pedro Jorge Pereira
Foi um dos fundadores do núcleo do Porto do Grupo de Acção e Intervenção Ambiental, entre outras experiências de activismo e voluntariado noutras associações, sobretudo de cariz ambiental, com particular destaque também para a Associação Cultural Casa da Horta.
Editou e publicou através do Programa Capital Futuro do Programa Juventude, o livro “Be the change you want to see”, com um forte carácter pedagógico, destinado à educação ambiental e sensibilização para a importância do voluntariado no mundo actual. Dinamiza frequentemente Oficinas ligadas ao tema e escreve artigos de reflexão/pensamento para diversas publicações digitais e em formato papel.
Dinamiza ainda um projecto na área da alimentação vegetariana natural, designado "Segredos da Horta", dada a importância que alimentação adquire naquilo que é a sua visão do mundo e da consciência que urge desenvolver em cada indivíduo a esse nível.
O blog: http://segredosdahorta.blogspot.com/
Acima de tudo, e antes de tudo, é um ser que procura reencontrar em si mesmo e no seu ambiente exterior esse força sublime, pura e incondicional da própria Mãe Natureza.

OFICINA “Ao Encontro da NATUREZA MÃE”

4 de Fevereiro, 6ªfeira, 19h00
duração aproximada: 2 a 3 horas

Porto
ESPAÇO: ESCOLHA HARMONIOSA

Contribuição: 10 euros

Mais informações e inscrições: http://www.escolha-harmoniosa.pt/

Monday, January 10, 2011

Oficina sobre Consumo Crítico e Consciente O3C´s - 15 de Janeiro de 2001, Sábado, às 10h00


Oficina sobre Consumo Crítico e Consciente

O3C´s

Dia 15 de Janeiro de 2001, Sábado, às 10h00

(duração aproximada: 2h30, 3h00)


Ponto de Encontro: Av. dos Aliados, em frente à C.M. do Porto, junto à estátua de Almeida Garret

Inscrições Limitadas e Gratuitas para esta edição


(Percurso essencialmente de rua e, portanto, sujeito às condições climatéricas existentes. Confirmação será enviada por e mail até 24h anteriores à actividade. Trazer roupa e calçado confortável. )


É um "lugar comum" dizer-se que a nossa sociedade se globalizou. Talvez seja mais difícil, no entanto, compreendermos ou reflectirmos sobre as mais diversas formas e repercussões dessa mesma globalização na nossa realidade do dia-a-dia. Nunca como hoje os bens que consumimos vieram tanto e de locais tão distantes do nosso planeta. Mas que implicações concretas esse facto terá para cada um de nós?

Numa sociedade dita de consumo cerca de 20% da população dos países ditos “mais desenvolvidos” consome cerca de 80% dos recursos. Esse consumo, ou para se ser mais exacto, consumismo, tido como “normal” e até intrínseco no nosso modo de vida tem no entanto pesadas implicações ambientais e sociais. A nível ecológico é desastrosa a forma como a nossa espécie tem vindo a levar à exaustão os mais diversos recursos naturais do planeta, provocando uma destruição sem ímpar dos habitats selvagens da Terra. Para além disso, e paradoxalmente, uma grande parte dos bens produzidos (quase 90%) são produzidos para uma utilizaçõa efémera (uma única vez) sendo depois responsáveis pela produção de toneladas e toneladas de resíduos cujo tratamento implica também, ele próprio, uma elevada factura ecológica. De entre esses resíduos destacam-se os plásticos, muitos vezes particularmente complexos em termos de reciclagem e recuperação, e outros materiais que quando libertados no meio ambiente natural provocam danos bastante sérios nos ecossistemas e nas espécies animais (muitas aves e mamíferos marinhos, por exemplo, morrem por asfixia devido à ingestão dos mesmos).

A nível económico e social (instâncias que desde logo se encontram intimamente associadas, se é que existe qualquer separação sequer, aos aspectos ecológicos dos fenómenos) os impactos da dita mundialização da economia (outra forma talvez de designar um fenómeno com uma agenda ideológica bem marcada como é o neoliberalismo) estão longe de se traduzir em efeitos muito positivos para as comunidades locais.

Tendo-se os nossos hábitos de consumo (ou maus hábitos) tornado tão banais e inconscientes e questão que urge lançar é: o que podemos nós fazer para fazer a diferença? Para mudar positivamente o nosso estilo de vida adoptando comportamentos e hábitos mais conscientes e positivos do ponto de vista ecológico e social?

A proposta da Oficina sobre Consumo Crítico e Consciente é uma viagem de reflexão sobre o nosso estilo de vida através de lugares, cores e aromas nevrálgicos para a actividade económica, cultural e social da cidade do Porto. É uma viagem “viva” sobre alguns dos efeitos da globalização económica na nossa comunidade local, assim como um exercício prático de reflexão sobre as nossas escolhas e opções enquanto cidadãos consumidores, nomeadamente em termos de pegada ecológica. Podemos viver consumindo menos e melhor? Podemos viver sendo parte da solução em vez de parte nesse tremendo problema actual que consiste na quantidade de resíduos que produzimos diariamente?

A resposta a essa e muitas outras questões que certamente surgirão poderemos encontrar no coração da própria cidade invicta.


Facilitador: Pedro Jorge Pereira - Activista Eco-Social e Formador

Participação limtiada ao número de vagas existentes. Prioridade por ordem de inscrição.

Data Limite das Inscrições, preferencialmente:

13 de Janeiro, 5ªfeira


Contactos e Inscrições:


Pedro Jorge Pereira

93 4476236

ecotopia2012@gmail.com

http://thechange2004.blogspot.com/


Caros, prejudiciais à saúde e destrutivos—mas ainda por cá. Porquê?

Caros, prejudiciais à saúde e destrutivos—mas ainda por cá. Porquê?

http://carbusters.org/2010/09/28/expensive-unhealthy-destructive-%E2%80%93-but-still-here-why/

texto original de Roger Bysouth na revista CarBusters tradução de Ana soares

Existem actualmente provas irrefutáveis que confirmam sem sombra de dúvida que os carros têm um custo económico enorme nas sociedades de todo o mundo: perda de saúde e vidas humanas, degradação do ambiente urbano, um clima alterado e um fardo económico igualmente partilhado por condutores e não condutores. Contudo, embora estejamos cientes de todas estas consequências negativas de longo alcance, parecemos incapazes de lidar com a ameaça do automóvel. Neste artigo, Roger Bysouth explora por que razões é assim e o que podemos fazer para mudar. Andar de bicicleta é saudável, em comparação com conduzir. Toda a gente sabe isso, mesmo o condutor mais inveterado. Isto podia não interessar muito se os transportes fossem uma actividade marginal que tomasse apenas uma parte muito pequena do tempo das pessoas e dos recursos do planeta. Mas a tendência mundial é em direcção a menos actividade física, mais condução e consequentemente pior saúde, principalmente através da obesidade e poluição. Conduzir carros é apenas um factor, mas um factor muito importante. Depois há as mortes na estrada e os ferimentos. A Organização Mundial de Saúde (OMS), no seu Relatório Mundial Sobre o Estado da Segurança Rodoviária, 2009, prevê que as mortes na estrada aumentarão de 1,2 milhões por ano (a nona maior causa) agora para 2,4 milhões por ano (a quinta maior causa) em 2030. Em 2007, os acidentes rodoviários custaram ao Serviço de Saúde Nacional Britânico 470 milhões de libras por ano e à economia britânica 8 mil milhões de libras por ano; tudo dinheiro que poderia ter sido melhor gasto.

Um grande assassino

A poluição e a falta de actividade física que os carros implicam contribuem para a maioria dos outros grandes assassinos que a OMS identifica no mundo actual. Colectivamente, conseguimos reduções extraordinárias em mortes por doenças transmissíveis. Mas parecemos incapazes de lidar com a ameaça dos carros, uma causa principal de outras doenças preveníveis, como a doença coronária, diabetes tipo 2 e cancros que são causadas directamente pelos nossos hábitos. A nossa avaliação do risco de saúde provocado pelo nosso estilo de vida parece errónea, como se estivéssemos em negação.

Conduzir carros tem ainda um efeito mais alargado na saúde. A maioria das mortes provocadas por ferimentos na estrada na maior parte do mundo, tal como calculado pela OMS no relatório acima referido, não são de condutores, mas de utilizadores vulneráveis das estradas (ciclistas, motociclistas e peões). Esta má saúde proveniente da poluição veicular afecta desproporcionalmente os pobres do mundo. Em última análise, os carros estão a contribuir para a mudança climática e assim a ameaçar o ambiente do qual a saúde e o bem estar de todos nós depende. Os cuidados médicos são uma parte do que determina a saúde. O restante é genético, que não pode ser alterado, ambiental e social, que pode se mudado para melhor ou para pior. A cultura automóvel danifica muitas destas componentes: as redes de apoio social e um ambiente protegido da poluição e da ameaça de ferimentos, que oferece a oportunidade de ser fisicamente activo.

Se estamos cientes das suas consequências adversas para a saúde, por que é tão persistente a cultura automóvel? Por que pode parecer uma adição para muitas pessoas? Como se tornou uma pandemia? E o que podemos fazer acerca disso?

Um fenómeno complexo

Não há uma única resposta. A maioria das respostas relevantes são perspectivas acerca do que é a cultura automóvel. É vista como uma ideologia; um sistema de crenças; economia; doença e hábito. Se a queremos combater, devemos primeiro reconhecê la como um fenómeno multi facetado que funciona a vários níveis que se reforçam mutuamente. Se queremos ter algum impacto em algum aspecto dela, por exemplo se as instituições de saúde quiserem diminuir o impacto adverso dela na saúde, temos de a combater a todos os níveis.

Seria útil olhar para as formas como outras emergências médicas preveníveis foram abordadas. Desde 1945 que muitas grandes doenças transmissíveis foram refreadas. Recentemente foi obtido sucesso em banir o fumar no oeste/norte. Nenhum destes assuntos era uma doença que requeresse uma resposta meramente médica.

As atitudes em relação ao fumar mudaram no espaço de uma geração. Onde fumar era norma para a maioria dos adultos e a exposição uma parte aceite da vida quotidiana, as coisas são agora muito diferentes. Muitos Estados, todos a receber retorno de impostos por cigarros legitimamente vendidos e alguns a lucrar de um monopólio de manufactura doméstica de tabaco, tentaram dissuadir as pessoas de fumar por razões de saúde. Os seus motivos não são apenas altruístas. O custo de lidar com doenças relacionadas com fumar é gigantesco.

E tudo isto foi conseguido apesar da publicidade ao tabaco, em parte porque esta foi frequentemente restringida desde os anos 60. A visão popular do fumar mudou. Em muitos sítios, é agora socialmente e legalmente inaceitável fumar em locais públicos incluindo locais de trabalho.

Algumas das lições para abordar a cultura automóvel são:

Atitudes aparentemente enraizadas podem mudar. Veja-se como os Holandeses aumentaram o ciclismo nos anos 70 como resultado da acção do Governo (ver Lyn Sloman’s Car Sick, Green Books, 2006, p. 98). A legislação pode ajudar a persuadir as pessoas a mudar o comportamento, mas não funciona por si só. A vontade política é crucial. Os Governos desejam crescimento económico e a indústria automóvel é vista como central nas economias nacionais. Por isso, desafiar a indústria automóvel não é opção para a maioria dos governos. Este artigo está a ser escrito durante a campanha das eleições gerais do Reino Unido. Todos os maiores partidos concordam firmemente na necessidade de fomentar o crescimento económico, inclusive através da indústria automóvel. Influenciar as pessoas através dos media pode ser eficaz. Tanto quem faz publicidade como especialistas em saúde pública podem fazer a diferença. Estas lições podem ajudar-nos a elaborar reacções diferentes que vão de encontro aos muitos aspectos da cultura automóvel. Talvez as mudanças mais importantes necessitem de ser feitas nas mentalidades das pessoas.

Incentivos e dissuasores

A nível económico há uma grande variedade de incentivos e dissuasores para persuadir as pessoas a mudar as formas de transporte: melhoramentos nos transportes públicos e melhores condições para peões e ciclistas, bem como aplicação de taxas, cobrança por congestionamento e racionamento de carbono. É necessário abordar outros assuntos económicos, como a propriedade automóvel (e os baixos custos extra marginais do uso de carros). Em Estados democráticos é também importante consciencializar as pessoas acerca dos custos financeiros que os fabricantes de automóveis actualmente tornam públicos na sua contabilidade, obrigando o Estado a escolher: especialmente nos custos dos tratamentos de doenças preveníveis, infraestruturas para transportes, etc. Não seria melhor ter a possibilidade de gastar noutras coisas?

Outra área através da qual as pessoas podem ser influenciadas é a publicidade em si. A cultura automóvel é constantemente reforçada pela publicidade da indústria automóvel e o seu poder é enorme, muito mais forte do que a indústria do tabaco alguma vez foi.

A indústria automóvel defenderia indubitavelmente, tal como as tabaqueiras, que não pretende aumentar o número total de compradores de carros, apenas aumentar a fatia de mercado da própria empresa. É verdade que há muitas outras formas através das quais a cultura automóvel recruta convertidos, desde brinquedos infantis (especialmente brinquedos para rapazes), a revistas populares acerca de carros e programas televisivos acerca do tema. Como produtos comerciais existem porque há procura. Mas, a par da publicidade a carros, são o meio diário pelo qual a cultura automóvel é estimulada.

O efeito persuasor

Um caminho semelhante para influenciar as pessoas é o efeito persuasor (Richard H. Thaler and Cass R. Sunstein, Nudge, Improving Decisions About Health, Wealth and Happiness, Penguin, 2009). Enquanto se salvaguarda o direito das pessoas a escolher uma opção não-saudável, a persuasão molda a forma como são oferecidas as escolhas às pessoas, por isso, a não ser que tenham objecções fortes, é provável que escolham a opção saudável. Os exemplos incluem a persuasão levada a cabo pelas autoridades Britânicas no sentido de fazer a população trocar os carros (ver www.smartertravelsutton.org).

As campanhas de saúde pública podem guiar-nos na escolha de mensagens. Vários estudos demonstram que às vezes as pessoas podem decidir mudar comportamentos relacionados com a saúde em reacção a mensagens chocantes ou que instiguem vergonha. Mas é mais provável que reajam a mensagens encorajadoras e práticas que as ajudem a lidar com problemas práticos que poderiam de outra forma fazê las regredir aos hábitos antigos. (Ver Geoff Mulgan, Influencing Public Behaviour to Improve Health and Wellbeing, an independent report, 2010.) O tratamento da adição também sugere modelos para influenciar indivíduos dependentes de automóveis. Aqui estão apenas alguns dos muitos paralelismos entre adição e cultura automóvel:



uma actividade arriscada de busca de prazer a dependência é tanto psicológica (acreditamos que não podemos passar sem isso) e física (má saúde tal como obesidade, engendrada pelos carros, torna nos mais dependentes deles) negação acerca da escala do problema sintomas de desabituação—o que mais serão o stress e a raiva na estrada relacionados com o facto de ficar preso no trânsito?

Um “direito natural”?

Finalmente, uma das nossas crenças centrais acerca da condução de carros é a de que é um “direito natural”. Assim, encontramos atitudes enraizadas, por exemplo, a de que os condutores têm o direito a usar as estradas como querem e ao combustível a um preço que definem como comportável. Estas crenças são reforçadas pela publicidade e outros transmissores da cultura automóvel: as organizações de lobbying automóvel e os media. Mas sabemos que tais atitudes não são universais. Lyn Sloman (op. cit. p. 56) explica que os condutores de carros não são todos inamovíveis na sua “adição”. Ela cita provas acerca de aproximadamente metade de todos os condutores necessitaria de pouco incentivo para reduzir o uso do seu carro. Podem ser necessários meios diferentes para alterar o comportamento de outros condutores; assim a cultura automóvel já não parece tão monolítica como atrás. A retratação, neste artigo, de algumas respostas possíveis apenas aflora a superfície do assunto. A chave é compreender melhor a variedade da cultura automóvel. Isto exige a mais difícil das tarefas: olhar para o que tomamos como garantido todos os dias e questioná-lo.

Roger Bysouth trabalha no Governo local no Reino Unido e é escritor e ilustrador por conta própria. Tem uma bicicleta e uma Brompton à disposição, através do sistema de ciclo de empréstimos isento de impostos do seu empregador.

Wednesday, November 24, 2010

Oficina sobre Consumo Crítico e Consciente O3C´s - Sábado 27 de Novembro

Oficina sobre Consumo Crítico e Consciente

O3C´s

Dia 27 de Novembro, Sábado, às 10h00

(duração aproximada: 2h00, 2h30)


Ponto de Encontro: Av. dos Aliados, em frente à C.M. Do Porto, junto à estátua de Almeida Garret

Inscrições Limitadas e Gratuitas


(possibilidade opcional de almoço vegetariano conjunto de tod@s participantes, após a oficina, na Casa da Horta – Associação Cultural, trazer também roupa e calçado confortável para caminhar)


É um "lugar comum" dizer-se que a nossa sociedade se globalizou. Talvez seja mais difícil, no entanto, compreendermos ou reflectirmos sobre as mais diversas formas e repercussões dessa mesma globalização na nossa realidade do dia-a-dia. Nunca como hoje os bens que consumimos vieram tanto e de locais tão distantes do nosso planeta. Mas que implicações concretas esse facto terá para cada um de nós?

Numa sociedade dita de consumo cerca de 20% da população dos países ditos “mais desenvolvidos” consome cerca de 80% dos recursos. Esse consumo, ou para se ser mais exacto, consumismo, tido como “normal” e até intrínseco no nosso modo de vida tem no entanto pesadas implicações ambientais e sociais. A nível ecológico é desastrosa a forma como a nossa espécie tem vindo a levar à exaustão os mais diversos recursos naturais do planeta, provocando uma destruição sem ímpar dos habitats selvagens da Terra. Para além disso, e paradoxalmente, uma grande parte dos bens produzidos (quase 90%) são produzidos para uma utilizaçõa efémera (uma única vez) sendo depois responsáveis pela produção de toneladas e toneladas de resíduos cujo tratamento implica também, ele próprio, uma elevada factura ecológica. De entre esses resíduos destacam-se os plásticos, muitos vezes particularmente complexos em termos de reciclagem e recuperação, e outros materiais que quando libertados no meio ambiente natural provocam danos bastante sérios nos ecossistemas e nas espécies animais (muitas aves e mamíferos marinhos, por exemplo, morrem por asfixia devido à ingestão dos mesmos).

A nível económico e social (instâncias que desde logo se encontram intimamente associadas, se é que existe qualquer separação sequer, aos aspectos ecológicos dos fenómenos) os impactos da dita mundialização da economia (outra forma talvez de designar um fenómeno com uma agenda ideológica bem marcada como é o neoliberalismo) estão longe de se traduzir em efeitos muito positivos para as comunidades locais.

Tendo-se os nossos hábitos de consumo (ou maus hábitos) tornado tão banais e inconscientes e questão que urge lançar é: o que podemos nós fazer para fazer a diferença? Para mudar positivamente o nosso estilo de vida adoptando comportamentos e hábitos mais conscientes e positivos do ponto de vista ecológico e social?

A proposta da Oficina sobre Consumo Crítico e Consciente é uma viagem de reflexão sobre o nosso estilo de vida através de lugares, cores e aromas nevrálgicos para a actividade económica, cultural e social da cidade do Porto. É uma viagem “viva” sobre alguns dos efeitos da globalização económica na nossa comunidade local, assim como um exercício prático de reflexão sobre as nossas escolhas e opções enquanto cidadãos consumidores, nomeadamente em termos de pegada ecológica. Podemos viver consumindo menos e melhor? Podemos viver sendo parte da solução em vez de parte nesse tremendo problema actual que consiste na quantidade de resíduos que produzimos diariamente?

A resposta a essa e muitas outras questões que certamente surgirão poderemos encontrar no coração da própria cidade invicta.

Facilitador: Pedro Jorge Pereira - Activista Eco-Social e Formador

Organização: Futuros Sentidos e Casa da Horta


Contactos e Inscrições:


Pedro Jorge Pereira

93 4476236

ecotopia2012@gmail.com


ou:


Futuros Sentidos

918744241

futurossentidos@gmail.com

http://futurossentidos.wordpress.com/


Wednesday, November 17, 2010

As Dez razões para dissolver a NATO


Texto retirado de: http://pimentanegra.blogspot.com/


As Dez razões para dissolver a NATO


Há 60 anos atrás foi criada a NATO para organizar a defesa dos Estados da Europa Ocidental e da América do Norte face à União Soviética. O fim da guerra fria retirou a razão de existir da NATO que, assim, ficou repentinamente sem inimigo. Começou, então, a reconversão dos seus objectivos políticos e militares a fim de justificar a sua existência. Na cimeira de Washington de 1999 redefiniu-se a estratégia da Aliança. Foi assim que, com a desculpa de contribuir para a estabilidade e a paz mundial, os líderes dos Estados membros decidiram ampliar o seu raio de acção de forma ilimitada para todo o planeta. Atrás desta mudança de estratégia está logicamente a vontade de controlar as zonas produtoras de recursos naturais de maior importância geoestratégia. Em 2002 na cimeira da NATO em Praga incorpora-se a luta contra o terrorismo internacional como um dos objectivos fundamentais e adopta-se a doutrina da guerra preventiva de Bush, o que colocou a Organização numa posição vulnerável face ao direito internacional.

Ora a melhor política de segurança é aquela que impossibilita a guerra. Para conseguir um mundo em paz, e mais justo, torna-se indispensável a dissolução da NATO.


Quais são as 10 razões que fazem da NATO um obstáculo para a Paz Mundial :


1) A NATO é o bloco militar mundial mais agressivo e mais belicista que potencia o aparecimento de novas guerras.

Com efeito, a NATO é uma organização militar que, desde 1999, decidiu abandonar o carácter defensivo da região do Atlântico Norte para adoptar uma estratégia ofensiva capaz de intervir militarmente em qualquer lugar do mundo. Tais intervenções militares podem provocar reacções em cadeia e a formação de novos blocos militares.

2) A NATO é uma organização não-democrática.

As decisões no seio da NATO são aprovadas fora de qualquer controle democrático, à margem dos parlamentos e instituições democráticas dos Estados membros, estando também sob o comando militar dos Estados Unidos da América. Uma resultante desse facto é que a NATO coage e restringe a política exterior dos Estados membros.

3) A NATO é, e tem sido, uma ameaça para a democracia.

A NATO aceitou que Estados não-democráticos tivessem sido seus membros, como foi o caso do Estado português da ditadura salazarista e do Estado grego da ditadura dos coronéis. A NATO participou também em conspirações e golpes antidemocráticos, assim como na manipulação da opinião pública. Ainda hoje fazem parte da NATO certos Estados pouco democráticos. O caso mais conhecido é o da Turquia.

4) A NATO tem como objectivo estratégico a guerra contra o terrorismo.

Uma vez desaparecida a URSS, a NATO ficou sem inimigo. Mas em vez de decidir dissolver-se inventou uma novo inimigo, o chamado terrorismo internacional. E foi com esse pretexto que interveio na guerra do Iraque em 2001, e agora no Afeganistão.

5) A NATO impulsiona e estimula novas corridas de armamento, e é por si mesma a ilustração mais viva do que é a militarização do mundo.

O aumento continuado dos arsenais dos países da NATO provoca o rearmamento reactivo de países como Rússia, China, Irão,…, assim como dos países que se consideram como seus rivais. A consequência de tudo isso é a crescente militarização do planeta.

6) A NATO é responsável pelo incremento das despesas militares, do crescimento da indústria e do comércio de armas a nível mundial.

O rearmamento constante dos Estados Unidos, assim como dos exércitos dos Estados membros da NATO, provoca um aumento contínuo das despesas militares, e promove a pesquisa em novas armas, assim como das indústrias que as produzem e do comércio que as vende. Não é, pois, de surpreender que os países da NATO representem 75% do total das exportações de armas no mundo.

7) A NATO promove a proliferação e a ameaça de guerras nucleares.

Os Estados Unidos possuem armamento nuclear em bases militares em solo europeu o que expõe os países europeus ao perigo de uma guerra nuclear.

8) A NATO define a imigração descontrolada como uma ameaça.

Toda esta estratégia de busca de novos inimigos e de ameaças imaginadas faz com que a NATO considere a imigração como uma ameaça. Esta postura de uma organização militar como é a NATO deve merecer a nossa maior preocupação

9) A NATO perpetua a tutela dos Estados Unidos da América sobre os Estados europeus e a política europeia.

Os governos europeus aceitam estar subordinados, através da NATO, aos interesses do complexo militar-indutsrial dos Estados Unidos. Esta situação impossibilita que a Europa assuma a função de promotora dos objectivos da Carta das Nações Unidas como o de evitar a eclosão de novas guerras. Para que isso seja possível torna-se indispensável a dissolução da NATO.

10) A NATO tem como função principal a defesa dos privilégios e dos interesses dos Estados mais ricos do mundo.

Esta é, indiscutivelmente, a razão mais importante para a subsistência desta organização militarista como é a NATO. O sistema sócio-econnómico dos países ricos exige o fornecimento permanente de matérias-primas que são vitais para manter o seu modelo económico que se mostra cada vez mais insustentável. A NATO é o instrumento militar que garante esse fornecimento, mediante o controle militar sobre os recursos e as regiões do planeta que são exploradas em benefício de um sistema depredatório e injusto.

Wednesday, October 13, 2010

Uma cidade auto-(i)mobbilizada




Uma cidade auto-(i)mobbilizada

Pedro Jorge Pereira


No passado dia 22 de Setembro assinalou-se, tal omo em anos anteriores, o “O Dia Mundial sem Carros”. Uma iniciativa que nos seus princípios pretende de alguma forma fazer pensar, e repensar, as políticas de mobilidade, particularmente no espaço urbano. Infelizmente pode-se concluir com relativa facilidade que em Portugal essa reflexão não tem vindo a produzir grandes mudanças ao nível das decisões políticas que se relacionam com mobilidade. O facto é que o predomínio do transporte automóvel individual sob todas as outras formas de transporte continua a ser avassalador e esse panorama deve-se, em larga medida, às decisões políticas que têm vindo a ser tomadas no sentido de manter e ampliar essa tendência. Claro que a dimensão da questão prende-se também, e em larga medida, com a sua dimensão cultural e sociológica. Todas elas encontram-se, de resto, profundamente interligadas.

O automóvel é por excelência o meio de transporte que mais exorta ao culto da individualidade, paradigma central no modelo ideológico neoliberal predominante. Em muitos países e culturas, ditas desenvolvidas, a emancipação social é avaliada em função da posse de veículo automóvel próprio e o prestígio social em função da marca e valor do mesmo.

Por detrás de toda esta cultura e exortação escondem-se factos talvez bem menos discutidos e considerados pela opinião pública. No cerne de todo este fenómeno encontra-se um elemento chave em todo o processo de auto-(i)mobilização da nossa sociedade: os combustíveis fósseis, nomeadamente o petróleo.

Sem qualquer dúvida, sem o petróleo toda a nossa realidade seria hoje muito diferente. A ideia de abundância e mito da riqueza infinita do petróleo levaram toda a sociedade, obviamente movida pelos interesses de grandes corporações financeiras sobretudo ligadas a essa mesma indústria, a auto-(i)mobiliazar-se, com óbvio destaque para as nações consideradas mais desenvolvidas.

O petróleo é sem dúvida a principal fonte de energia do século XX, com todas as tremendas vicissitudes por ele induzidas. De entre todos os sectores onde essas mudanças se reflectiram (praticamente a todos os níveis), desde logo ao próprio nível alimentar com a massificação do uso de pestícidas e fertilizantes químicos de base fóssil, o dos transportes é talvez um dos mais evidentes. No entanto o termo-nos tornado quase por completo dependentes dessa energia fóssil parece fazer-nos esquecer de um facto tão ou mais importante: o petróleo, sobretudo o petróleo a um preço “barato” para a maioria das populações, é uma realidade com os dias contados. E nesse perigoso esquecimento reside uma enorme incapacidade de estarmos preparados para o que poderá acontecer quando toda a economia não puder continuar a funcionar como tem feito até aqui. É algo para o qual simplesmente não estamos preparados. Tornamo-nos dependentes de recursos, alimentos, bens, transportados “do outro lado” do mundo. Uma imensidão de objectos e utensílios do nosso dia a dia são fabricados através de processos de transformação “petróleo-dependentes” ou contêm grandes quantidades de petróleo na sua composição (é a era do plástico e do descartável). E quando isso simplesmente já não for acessível? Um autor com reflexões e possíveis projecções muito interessantes a esse respeito é James Horward Kunstler.

As energias fósseis consistem, de uma forma muito básica, em matéria fóssil, em matéria orgânica, acumulada ao longe de milhares de anos na terra. Essa matéria fóssil é uma espécie de sintetização da energia solar assimilada mas, também, de enormes quantidades de carbono absorvidas sobretudo pela plantas ao longo desse mesmo período. A sua combustão implica, inevitavelmente, a libertação de enormes quantidades de dióxido de carbono para a atmosfera. A emissão desses gases de carbono tem as consequências que são cada vez mais conhecidas em termos de agravamento do fenómeno do aquecimento global. Por isso a utilização de combustíveis fósseis, que é um dos principais elementos que caracteriza a nossa sociedade, tem consequências extremamente nefastas para a ecologia do planeta. A promoção e enorme incentivo – político, económico e até cultural – a um estilo de vida “petróleo-dependente” e consumista é uma prática que, ainda que profundamente enraízada, se revela com contornos desastrosos para o meio ambiente e para os ecossistemas do quais dependemos directa e indirectamente para sobreviver.

Todo o processo de extracção, transporte, refinamento e utilização petrolífera se revela com tremendos impactos ecológicos, e por ecológicos considere-se tanto a dimensão ambiental como social da questão. Toda o quadro geopolítico internacional se movimenta em torno do acesso aos principais recursos energéticos, com natural destaque para o petróleo e gás natural. As populações locais raramente retiram grandes (se alguns sequer) benefícios da exploração dos recursos naturais das suas comunidades. Muitas vezes comunidades locais veêm todo o seu estilo de vida ancestral destruído (com a destruição em larga escala dos próprios habitates naturais que as suportam) e são obrigadas a deslocar-se das terras onde vivem há gerações e gerações para tentar sobreviver nas periferias dos já sobrelotados grandes centros urbanos, onde tudo o que lhes espera é uma vida regra geral completamente miserável.

Será que alguma vez pensamos nisso quando usamos e abusamos do petróleo? A forma como o “petróleo” entrou na nossa vida foi tão vertiginosa que já se torna quase utópico imaginarmos uma vida sem petróleo. Logo, imaginarmos também uma sociedade sem transportes automóveis. A banalização do seu uso atinge no espaço urbano um dos seus principais extremos.

Um outro aspecto crucial para a compreensão e reflexão sobre a questão prende-se com o fenómeno da “sub-urbinização” dos centros urbanos. Numa época não muito distante (há poucas décadas), anterior à emergência deste fenómeno, as pessoas geralmente não necessitavam de se deslocar grandes distâncias para trabalhar ou estudar nas cidades porque, regra geral, as zonas habitacionais situavam-se maioritariamente no interior ou muito próximas das mesmas. A vulgarização do uso do automóvel contribuiu, em larga medida, para o surgimento do fenómeno da especulação imobiliária como o conhecemos na actualidade. O mercado imobiliário em vez de privilegiar a recuperação e construção de habitações situadas no centro das cidades começou a orientar-se, movido simplesmente pela febre do maior lucro possível, de forma quase exclusiva para a construção em massa de subúrbios, geralmente caracterizados por construções de fraca qualidade e concentração de milhares de pessoas em áreas relativamente reduzidas, com tudo o que isso implica em termos ambientais. Edifícios de cimento e betão que vieram quase sempre ocupar espaços de considerável valor ecológico ou agrícola situados normalmente no exterior das próprias cidades. Aparentemente ficaram a ganhar as grandes empresas construtoras, os empreiteiros, os fabricantes de cimento e materias de construção que normalmente não se caracterizam por ser propriamente os mais ecológicos e com menores impactos para a saúde e para o ambiente. Aparentemente ficaram a ganhar as autarquias devido a um perverso sistema tributário que premeia as autarquias com maior número de edificações e habitantes. Quem ficou a perder no fundo fomos e somos todos nós. Perdemos áreas de elevado valor ecológico natural e agrícola, vitais para o regular funcionamento do nosso ecossistema e essenciais em termos de produção e auto-suficiência alimentar. Perderam as nossas cidades pois tornaram-se envelhecidas e a podridão e o abandono veio tristemente ocupar muitas das zonas onde anteriormente havia … pessoas, vida e actividade. Perdeu a nossa cultura com uma enorme descaracterização e desarmonia arquitectónica e o surgimento de subúrbios feios e cinzentos. Perdeu a nossa sociedade pois entre deslocações desnecessariamente acrescidas as pessoas quase deixaram de ter tempo para viver na e a cidade.

Perdeu e continua diariamente a perder o nosso planeta, e de que forma! É só fazermos a conta à quantidade de gases nocivos para o ambiente e para a saúde pública libertados em cada km por cada automóvel e à quantidade de automóveis que formam diariamente estes movimentos pendulares a nível mundial.

As próprias vias de comunicação rodoviária para além de também elas próprias largamente dependes do petróleo (e contribuírem para a manutenção de uma dependência dispendiosa e repleta de variados perigos) vieram também apropriar-se de espaços que pertenciam às cidades, às vilas ou, mais simplesmente, à própria Natureza e às pessoas.

Não deixa ainda de ser irónico pensarmos que uma parte muito substancial das deslocações são de muito curta distância, ou seja, poderiam perfeitamente ser efectuadas de forma pedonal ou, eventualmente, com o recurso a velocípedes ou outros veículos não motorizados.

Não é só em termos de destruição dos ecossistemas ecológicos que os efeitos negativos da “automobilização” se fazem sentir. Na realidade a nossa sociedade está a pagar uma factura demasiado elevada por exemplo em termos de saúde. Um estilo de vida sedentário e “carro-dependente” contribuem para a proliferação de forma epidémica da obesidade e doenças cardiovasculares, entre outros distúrbios afins.

A saturação do ar, particularmente nas cidades, por gases nefastos expelidos pelos milhares de automóveis que as invadem é um dos principais responsáveis pelo surto de doenças de foro respiratório que caracterizam as gerações pós-automobilização. Especialmente vulneráveis são as crianças e bebés que têm a esse nível uma qualidade de vida muito inferior à que os seus avós tiveram.

O stress induzido pelo próprio ruído do tráfego automóvel não é também um aspecto de menor gravidade. Especialmente afectadas são, claro, as pessoas que vivem nas proximidades dos principais eixos rodoviários.

Depois em termos de sinistralidade o tráfego automóvel traduz-se, na prática, quase como uma “guerra civil” que todos os anos, entre óbitos e feridos - muitos deles graves, vitima centenas de pessoas. Em 2009, só em Portugal, morreram (ou seja, só se está a falar dos acidentes mortais) 738 pessoas!!! (1)

Apesar de tudo isso, como é possível termos chegado a este ponto em que o espaço público urbano foi quase totalmente roubado pelo automóvel? Um espaço que era de encontro, circulação, de mobilidade e de expressão cultural foi simplesmente ocupado por largas estradas que mal deixam espaço para os peões poderem circular e por automóveis a circular muitas vezes a velocidades que tornam uma simples brincadeira de criança ou pequena distracção, por exemplo de algum invisual, num jogo de limbo entre a vida e a morte.

Se olharmos para as imagens antigas das nossas cidades vemos uma realidade bem diferente. Se viajarmos até ao período anterior à vulgarização do automóvel como meio de transporte, de todas as diferenças uma que sobressai é a de uma cidade bem mais ampla. O espaço que agora “pertence” aos automóveis pertencia às próprias pessoas. Sítios agradáveis, onde agora se concentram automóveis no exercício furioso do “pára-arranca”, eram preenchidos por crianças a brincar, grupos de pessoas falando e convivendo, por pessoas simplesmente circulando no seu espaço social e cultural.

Chegando a este ponto coloca-se a questão: O que fazer para inverter esta tendência que nos trouxe até este ponto?

Muito basicamente existem dois níveis predominantes de actuação:

O individual e o, digamos assim, político.

A nível das instituições e entidades públicas, em Portugal, não são muitos os bons exemplos no que se relaciona com a implementação de medidas de mobilidade realmente sustentáveis.

Não deixa por exemplo de se salientar claramente pela negativa o brutal desinvestimento na rede de transportes ferroviários, com uma evidente negligência e mesmo desprezo pelas populações do interior. (2)

“Num espaço de cerca de 30 anos, foram encerrados definitivamente 724 kms de linhas férreas, maioritariamente nas regiões de Trás-os-Montes e Alto Douro, Entre-Douro e Minho, e Alentejo.

Evolução da extensão de Rede Ferroviária Portuguesa ao longo dos últimos 100 anos:


1910 - 2898 Km

1974 - 3563 Km

2006 - 2839 Km”


Ou ainda

“As restrições orçamentais e o combate ao endividamento público no âmbito do Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) levaram a Refer a abandonar praticamente todos os projectos de modernização da rede ferroviária nacional, reduzindo assim o seu investimento para este ano de 800 para 200 milhões de euros.”(3)


A nível do espaço urbano são poucas as cidades susceptíveis de serem consideradas “sustentáveis” em termos de mobilidade.

Como de certa forma já foi referido, a “subalternização” dos peões face ao próprio automóvel fica bem patente, por exemplo, na tipologia das próprias ruas. Com passeios tantas vezes muito pequenos face à dimensão das próprias estradas.

A construção de mais parques de estacionamento no seu interior, a quase total ausência de ruas “livres” do tráfego automóvel, a escassez de faixas “bus”, ou a ausência de ciclovias (que geralmente não são consideradas como reais alternativas em termos de mobilidade mas somente na sua dimensão de lazer geralmente de fim-de-semana) não deixam de ser evidentes indicadores da sensibilidade (ou falta dela) política no que concerne à coragem para tomar decisões que libertem as cidades da “ditadura do automóvel”.

Está demonstrado pela experiência de várias cidades europeias que restrições sérias ao tráfego automóvel conduzem a uma melhoria acentuada dos próprios serviços de transporte público (desde logo pela maior taxa de utilização) e, claro, a um aumento da qualidade de vida no interior dessas mesmas cidades. Em Portugal, pelos vistos, ainda se considera que as infindáveis horas dispendidas no interior dos automóveis são horas de qualidade.

Normalmente o poder político só empreende mudanças efectivas em determinada questão quando existe uma massa crítica social suficientemente grande ou importante possuídora de capacidade de pressão sobre esse mesmo poder. Ou então pela sensibilidade particular de algum dirigente político .

Sem desprezar o enorme valor que acção colectiva de cidadãos pode ter no sentido de reivindicar efectivas mudanças políticas, aquilo que no imediato se perspectiva como a atitude mais valiosa por permitir fazer a diferença “aqui” e “agora” é a própria acção individual. Ou seja, aquilo que cada um de nós pode (e deve talvez) fazer para podermos viver num mundo melhor. Neste caso um mundo melhor, uma cidade melhor, é um mundo onde nos podemos libertar em larga medida da dependência do petróleo e, muito em particular, da nossa “carrodependência”. Não é necessariamente um mundo sem carros, mas é um mundo onde a mobilidade é estruturada muito mais em função dos meios de transporte colectivos e dos meios de transporte individuais não motorizados. Sendo que as bicicletas adquirem, nesse sentido, particular importância.

Algumas acções que cada um de nós pode empreender:


  • Usar mais os transportes públicos, nem que seja, numa fase inicial, através da escolha de um ou dois dias por semana de “não utilização” do automóvel

  • Descobrir o prazer e sensação de liberdade que o uso de uma bicicleta na cidade proporciona.

  • Reivindicar a criação de pistas cicláveis e lugares de estacionamento para velocípedes na tua cidade à imagem, de resto, do que sucede nos países mais desenvolvidos da Europa, onde, em muitos casos, a mobilidade urbana é predominantemente ciclista e feita através de transportes públicos.

  • Evitar, ou pelo menos reduzir, a utilização de meios de transporte emissores de CO2, sobretudo, por exemplo, o avião. Ainda para mais considerando que muitas das viagens consistem em distâncias relativamente pequenas e de curta duração.

  • A utilizar o automóvel, usar e incentivar sistemas de partilha de veículo.

  • Andar mais e mais a pé.

  • Fazer parte de associações ambientalistas e/ou grupos de pressão que tenham como objectivo reivindicar o espaço público para as pessoas e não para os carros.

  • Passar e divulgar a mensagem

  • Ser criativo na criação de “um mundo melhor”, num mundo com menos, muito menos, carros a circular e ocupar o nosso espaço público e cultural. Exemplos de alguns movimentos e iniciativas nesse sentido vão surgindo, felizmente, um pouco por todo o lado e Portugal não é excepção. (5)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Autoportal, “Acidentes nas estradas fizeram 738 mortos em 2009” http://www.autoportal.iol.pt/noticias/geral/acidentes-nas-estradas-fizeram-738-mortos-em-2009

  2. Blog Braga-Porto40minutos

    http://bragaporto40minutos.blogspot.com/2009/04/factos-sobre-rede-ferroviaria.html

  3. Público, Carlos Cipriano 08 de Julho de 2010

    Outros

  4. Car Busters

    http://carbusters.org/

  5. Acção de Ocupação do Espaço Auto – (I)Mobilizado no Porto http://casadahorta.pegada.net/entrada/2010/09/28/relatorio-sobre-o-dia-mundial-sem-carro/ [consultado em 12 de Outubro de 2010]

    Movimento Massa Crítica

    http://www.massacriticapt.net/


Sugestões e Revisão Ortográfica: Sofia Barradas. Obrigado Sofia.

Sugestões e Comentários: Veronka Vaspal. Obrigado Veronka.

Monday, October 04, 2010

O debate sobre GUERRA, PAZ E NÃO VIOLÊNCIA 12 de Outubro, Porto




12 outubro, no Porto: Guerra, Paz e Não Violência

Assista e participe neste debate (18:00, terça 12 de outubro,
na Sala da Orquestra da Universidade Católica Portuguesa (Foz),
Rua Rua Diogo Botelho, 1327,
que assinala o pré-lançamento do livro PEREGRINAÇÃO ÀS FONTES,
de LANZA DEL VASTO
(obra disponível a partir de 30 de novembro de 2010)

Ouça também aqui cítara indiana tocada por Franklin Pereira.

Participe ainda na viabilização desta edição invulgar. Veja como:

http://www.sempreempe.pt/peregrinacao


Franklin Pereira tem tocado e gravado cítara indiana desde há algumas décadas
em Portugal, e tem estudado continuadamente esse instrumento,
nomeadamente, por diversas vezes, com mestres indianos na Índia

O debate sobre GUERRA, PAZ E NÃO VIOLÊNCIA

partirá de apresentações iniciais de

Jorge Leandro Rosa, um dos fundadores da ALOOC, Associação Livre de Objectoras e Objectores de Consciência; investigador no Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens da Universidade Nova de Lisboa, Professor Associado na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, profundo conhecedor do pensamento de Lanza del Vasto, a cujas conferências em Portugal assistiu no final dos anos 1970

Jorge Teixeira da Cunha, Professor na Universidade Católica Portuguesa, Porto, teólogo, sacerdote e assistente da Comissão Diocesana de Justiça e Paz, autor de livros na área da bioética, entre os quais Bioética breve, de 2002, e de artigos em várias temáticas, incluindo, por exemplo, A teologia moral, a tolerância e o pluralismo ético

Mário Brochado Coelho, advogado, com numerosas intervenções cívicas ao longo da vida, autor de dois livros fundamentais para a compreensão da questão angolana (Em Defesa de Joaquim Pinto de Andrade e Lágrimas de Guerra (diário da guerra de Angola); agraciado em 2006 com a Ordem da Liberdade pelo Presidente da República

Pedro Jorge Pereira, autor do livro Be the Change you want to see (inspirado numa frase célebre de Gandhi, e escrito em português, apesar do título), animador do forum electrónico Mahatma Gandhi, activista no domínio ecológico, social, alimentar, dos direitos dos animais numa perspectiva altermundialista e não violenta

A organização é das Edições Sempre-em-Pé, que agradecem a cedência do local pela Universidade Católica (Centro do Porto), na Foz, e o apoio especial do Professor Jorge Teixeira da Cunha.


J. C. Costa Marques * Edições Sempre-em-Pé

Rua Camilo Castelo Branco 70/52 * 4425-037 Águas Santas
contacto@sempreempe.pt * Telefax 22 975 9592 * www.sempreempe.pt

nif 152 977 023 * nib 00 33 0000 45320830239 05 * IBAN PT 50 00 33 0000 45320830239 05 *SWIFT/BIC BCOMPTPL

Wednesday, September 15, 2010

Uma ecoreflexão sobre a Água

Uma ecoreflexão sobre a Água

Publicado na “Revista Vegetariana nº5”, Edição de Outono 2010

Pedro Jorge Pereira



Já todos ouvimos ou lemos nalgum lado, ou em vários lados, que a água é um bem precioso. No entanto coloca-se a questão de saber em que medida esse dado terá sido suficiente para efectuarmos mudanças realmente profundas no nosso próprio estilo de vida e, particularmente, naquilo que à água diz respeito.

Sendo na verdade um bem “tão valioso”, não deixa de ser paradoxal pensar que é precisamente na água que são lançados a maior parte dos resíduos domésticos e industriais (sobretudo os líquidos) produzidos pela nossa sociedade consumista. Na verdade todo o sistema de tratamento de esgostos é um enorme paradoxo e, porque não dizer, uma tremenda estupidez: Lançam-se na água toneladas e toneladas de resíduos, nomeadamente feses, urina, etc. para depois se terem de gastar milhões e milhões de euros a tentar tornar essa água que se contaminou minimamente “aceitável”. Claro que o dinheiro gasto é apenas um dos aspectos da questão. Raramente os sistemas de tratamento funcionam plenamente e raramente as soluções técnicas tornam possível uma total recuperação da qualidade da água.

Por outro lado não deixa de ser interessante referir que é precisamente a sua imersão na água que torna o processo de decomposição natural por exemplo das fezes demorado e complicado.

Claro que é assustador pensarmos em restruturar completamente todo o sistema de tratamento de esgostos mas de certa forma, ainda que passível de demorar décadas, é uma medida que deveria pelo menos começar a ser pensada se queremos resolver realmente a questão. Já existem diversas soluções, para já ainda de pequena escala, alternativas de sistemas de tratamento de resíduos. As “Casas de Banho Secas” são um óptimo exemplo de uma solução com baixos custos em termos de investimento e com um resultado em termos de tratamento praticamente 100% eficaz. Um site nacional sobre o assunto e que vale a pena visitar encontra-se em:

http://casasdebanhoecologicasportugal.blogspot.com/

Outros sistemas também bem sucedidos recorrem ao tratamento através de plantas que efecutam a depuração das águas e lamas contamiandas. São uma espécie de “pântanos” que, na realidade, constituem-se como um sistema biológico de tratamento de águas residuais.

É também fundamental referir que no que diz respeito aos consumos urbanos, cerca de metade desses consumos (à volta de 40%) prendem-se com o funcionamento das casa sde banho e cerca de 28% (!!! quase 1/3 de todo o consumo) com o autoclismo (1). Também aí o paradigma de consumo não deixa de ser no mínimo questionável se pensarmos que estamos a “desperdiçar” água potável e limpa para enviar os resíduos para os esgotos ao mesmo tempo que as águas ditas “cinzentas”, ou seja, as águas que resultam por exemplo dos banhos e lavagens, poderiam e deveriam perfeitamente ser aproveitadas para esse fim.

De certa forma a questão fundamental é que se continua a utilizar a água numa óptica marcadamente consumista, ou seja, acreditando-se que é um recurso, ou um bem, ilimitado e em relação ao qual não existe a relação de respeito e consciência que deveria existir. É fácil esquecer que a água canalizada é um “luxo” só mais ou menos recentemente adquirido pela maior parte da população portuguesa e que essa água não é de facto um “bem aquirido”. Em larga medida continua ainda a ser um luxo pois só uma parte da população mundial tem acesso a água potável e uma parte ainda menor tem acesso a água canalizada. Considerando os padrões de consumo actuais:

"Em Portugal o consumo médio de água anual num agregado familiar com quatro pessoas é de aproximadamente 180 m3 de água, o equivalente a 15 m3 de água por mês [por agregado ou 3,75m3/mês/pessoa]" (2)

"Cada pessoa com acesso a água da rede pública em Portugal consome, em média, pelo menos 154 litros de água por dia" [cerca 4,6m3/mês/pessoa] (3)

Não é preciso pensar muito para constatar que consumimos demasiada água. A mudança, acima de tudo, tem necessariamente que ser “cultural” e “educacional”. Provavelmente se não fizermos esforços realmente significativos e voluntários tendentes a reduzir os nossos padrões de consumo (também no que à água diz respeito) em breve teremos possivelmente que fazer esses esforços coercivamente, sobretudo devido à escassez e destruição de recursos naturais que o nosso estilo de vida esbanjador está a provocar. Portugal, nomeadamente face às alterações climáticas que infelizmente já se fazem sentir, será previsivelmente uma país muito afectado pela ausência de água dado que uma parte muito substancial do solo nacional encontra-se já numa situação técnica de desertificação. Não obstante, e mais uma vez paradoxalmente, continua-se a aprovar a construção de campos de “golf” e a edificação de “resorts” turísticos com indíces muito elevados de consumo de água precisamente em algumas das áreas mais críticas em termos de carência desta.

Àparte de todos essses aspectos fundamentais, e no que há água diz respeito, há um outro aspecto fundamental que raramente é mencionado ou analisado: O impacto que a nossa alimentação tem em termos de consumo de água, sobretudo se pensarmos numa alimentação não vegetariana.

Só para termos uma pequena ideia, aqui ficam alguns dados que dizem por si só imenso (senão mesmo tudo):

- Actividade responsável por mais da metade de toda a água consumida para todos os fins nos Estados Unidos: Criação de gado

- Número de litros de água necessários, na Califórnia,

para produzir 1kg comestível de:

Tomates: 39
Alface: 39
Batata: 41
Trigo: 42
Cenoura: 56
Maçã: 83
Laranja: 111
Leite: 222
Ovos: 932
Galinha: 1.397
Porco: 2.794
Carne de boi: 8.938


- Quantidade de detritos (fezes nomeadamente) produzidos a cada segundo por animais criados para consumo humano: 125 toneladas (o peso de 15 elefantes africanos adultos)

- Para se produzir cerca de meio quilo de carne bovina são necessários 7,5 kg de cereais, 9500 litros de água e energia, equivalente a quase 4 litros de petróleo.

- Na produção de uma dieta carnívora utilizam-se 48 m litros de água por dia, 2400 litros diários seriam o suficiente para a produção de uma alimentação vegetariana.


A magnitude destes dados é assustadora não é?

O impacto ecológico da produção pecuária é brutal não só em termos de recursos (da quantidade de água) que exige mas também em relação aos detritos produzidos e que, fatalmente, acabam lançados nas águas dos nossos rios e lençois freáticos.

Só para se ter uma pequena ideia da realidade nacional, diga-se que uma das áreas com maior concentração de suíniculturas do país, a região de Leiria, é também uma das áreas que apresenta maiores problemas em termos de poluição fluvial. O rio Liz, por exemplo, encontra-se praticamente contaminado com os detritos resultantes das explorações pecuárias, como podemos ver num artigo muito recente do Público-Ecosfera (4)

A realidade não é muito diferente no que diz respeito a aviários e, sobretudo, explorações bovinas. Para utilizarmos água de forma consicente é fundamental adoptar toda uma série de medidas de poupança e de redução significativa dos consumos, medidas que vão deste a adopção de hábitos de consumo mais saudáveis e equilibrados até à reutilização das águas usadas por exemplo para rega. Mas será que podemos ser “ecológicos” e, ao mesmo tempo, continuar a comer carne, sobretudo nas proporções que esse consumo adquire no nosso mundo dito “desenvolvido”?

Tendo noção do impacto que a produção pecuária aduire em termos de quantidades de água consumida e de detritos produzidos (quer em termos quantitativos, pelo seu volume, quer em termos “qualitativos”, pela grau de dificuldade e custo que o seu tratamento implica) será que nos podemos dar ao luxo de querer poupar água e, ao mesmo tempo, continuar a comer carne sobretudo nas proporções que a grande maioria das pessoas ainda o faz actualmente?

A adopção de um estilo de vida vegetariano, ou pelo menos maioritariamente vegetariano, não é só uma atitude ética positiva para com os animais que são explorados e sacrificados para a “produção” de carne. É também um gesto de respeito para com o próprio Planeta Terra e de protecção dos habitates naturais ameaçados e sacrificados para a produção pecuária. Ao mesmo tempo, evitar a destruição desses habitates é também um gesto de protecção de toda a vida selvagem (fauna e flora) que deles depende. E é importante não esquecer que também a nossa própria vida depende da existência de habitates naturais preservados (florestas que nos fornecem o oxigénio vital à vida, rios com água limpa e saudável, etc.)

Há sempre imenso que podemos fazer e mudar para tornar o nosso estilo de vida mais equilibrado e com um impacto ambiental bem mais pequeno. Uma grande parte dessas acções e mudanças passam, sem qualquer dúvida, pelo nosso prato. Na escolha consicente e informada daquilo que realmente optamos, ou não, por incluir na nossa alimentação.

Uma das formas mais directas de preservar os nossos recursos hídricos é evitando contribuir para algumas das actividades que maior ameaça têm vindo a constituir para esses mesmos recursos, nomeadamente a indústria pecuária e a agricultura industrial, que recorre amiúde a fertilizantes e pesticidas químicos que inevitalmente escorrem para os cursos de água superficiais e subterrâneos.

Agora que já sabes, o que vais escolher para o jantar?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) Planeta Azul – Portal do Ambiente e Sustentabilidade sobre o “Consumo de Água”

http://www.planetazul.pt/edicoes1/planetazul/desenvArtigo.aspx?c=2249&a=15762&r=37

(2) Semanário Labor.pt

http://www.labor.pt/noticia.asp?idEdicao=113&id=5217&idSeccao=1070&Action=noticia

(3) Blog Ambiente e Qualidade de Vida

http://ambientequalvida.blogs.sapo.pt/42283.html

(4) Público – Ecosfera

Poluição já atinge a foz do rio Lis em "níveis preocupantes"

http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1441954




I Colóquio sobre Educação e Ética Ambiental