Tuesday, April 10, 2007

Feira Ecológica em Santa Maria de Lamas


A 20 de Março o GAIA esteve em Santa Maria de Lamas na Primeira Feira Ecológica do Colégio local, uma inciativa que decorreu com bastante sucesso a entusiasmo dos jovens alunos. Na banca do GAIA, graças ao activismo das Gaiatas de serviço, esteve o livro “Be the Change” ... escrito sobretudo a pensar nos jovens e para os jovens ...


Thursday, March 22, 2007

almoçar sobre pedais ...


este tipo de notícias merecem sempre ser divulgadas, até pelo efeito “multiplicador” que podem sempre ter ... oxalá assim seja!!!


Estudantes da Ginestal Machado podem ir almoçar de bicicleta


Cinquenta bicicletas foram postas à disposição dos alunos do 10.º, 11.º e 12.º anos da Escola Secundária Dr. Ginestal Machado, em Santarém, para que possam ir de bicicleta almoçar a casa e regressar à escola. Fomentar a actividade física saudável e menos poluente e contribuir para uma cidade mais dinâmica, jovem e com maior consciencialização dos automobilistas face aos velocípedes, é o objectivo. O protocolo, designado de "Al-moços sobre rodas", foi assinado quinta-feira entre a presidente do conselho directivo da escola, Henriqueta Carolo, e a vereadora da Câmara de Santarém, Lígia Batalha (PSD). A autarquia adquiriu as bicicletas.


À hora de almoço os estudantes do ensino secundário vão poder requisitar as bicicletas de todo o terreno e capacetes para se deslocarem para casa ou outro local e poderem depois regressar à escola. A preferência será dada aos jovens que moram no planalto e aqueles que se possam deslocar em grupo.

Antes de irem para a estrada os alunos vão receber formação em regras de trânsito nas instalações da antiga escola fixa, com a presença dos pais, previsivelmente em horário pós-laboral. Os alunos que se deslocarem nas bicicletas estarão ainda cobertos pelo seguro escolar.


Nessa quinta-feira, 50 estudantes, com Henriqueta Carolo e Lígia Batalha à cabeça do pelotão, desfilaram em torno da escola. Já sem as condutoras mais "velhas", o "pelotão deslocou-se" à câmara para entregar um manifesto pelo ambiente e pela segurança nas estradas. Para Raquel Vieira, acabada de chegar da voltinha pela cidade, a iniciativa tem interesse e até põe a hipótese de passar a ir almoçar a casa de bicicleta, apesar de ser do oitavo ano. "Moro junto ao Modelo e até gostava de experimentar mas penso que devia ser melhor andar individualmente do que em conjunto para haver menos confusão", opina. Quanto ao meio de transporte, diz nada ter a apontar.


Também João Martins, do 12.º ano, diz que se trata de uma boa ideia.

"Principalmente por podermos fazer desporto, mas também para se andar mais à vontade na cidade, sem tantos carros". O estudante, que mora na zona do hospital velho, diz que as bicicletas são suficientemente boas para andar a circular.


Semanário Regional O Mirante - 21.3.2007

http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=279&id=33043&idSeccao=3917&Action=noticia


Thursday, March 01, 2007

alimentação sem crueldade ...




alimentação sem crueldade ...


um dos temas que pressinto, de alguma forma, ter abordado de forma mais lacónica, ou até ausente, no projecto “Be the Change” foi a questão do vegetarianismo e de uma série de considerações \ reflexões que lhe estão associadas ... reflexões que, de resto, são, diria, absolutamente vitais na óptica de uma reflexão profunda e holística do próprio ecologismo e da nossa vida em sociedade ... creio que quando foi abordado o pensamento “biocêntrico” a questão ainda foi implicitamente tocada ...

bom, porque nestas coisas acredito sempre que uma imagem vale mais que mil palavras, aproveito para divulgar o excelente trabalho de informação que a Associação Animal tem desenvolvido no sentido de nos dar a conhecer a realidade que está inerente à “produção” de carne, o que se esconde por trás do bife que temos no prato (uma realidade que tantos de nós persistem em querer ignorar, e porquê? Creio que quem opta por uma alimentação omnívora o deve, sobretudo, fazer em plena consciência, assim como todas as opções na vida).

Tudo em:


www.TVANIMAL.org



Investigação sob disfarce da ANIMAL revela crueldade de que animais de criação são vítimas em unidades agro-pecuárias em Portugal

Investigadores da ANIMAL trabalhando sob disfarce filmaram a realidade escondida da vida e morte dos animais de criação na indústria pecuária em Portugal ::

A ANIMAL revela agora o resultado de uma investigação especial que conduziu entre Setembro e Outubro passados em unidades agro-pecuárias do distrito de Lisboa e Leiria. Trabalhando sob disfarce nesta investigação, investigadores da ANIMAL tiveram acesso privilegiado aos escondidos bastidores da produção de carne, ovos e leite em Portugal, conseguindo filmar unidades de criação de porcos, leitões, frangos, perus, patos, vacas e vitelas, o transporte destes animais, a maneira violenta como são conduzidos, a maneira como são mantidos nos pontos de transferência e, por fim, a maneira como são mortos.

Esta investigação especial permitiu expor a crueldade imensa da produção agro-pecuária intensiva em Portugal, num contexto em que os animais são criados, tratados, mortos e processados por um lado como autênticas máquinas e, por outro lado, como meros instrumentos de obtenção de lucro. Esta investigação deixa claro como a produção animal assenta numa total ausência de qualquer preocupação real com os animais – mesmo em pontos que são legalmente estabelecidos como importantes no que se refere a legislação comunitária e portuguesa de bem-estar animal que não é cumprida –, mostrando também o impacto ambientalmente muito negativo da indústria pecuária, sendo especialmente focado o caso das altamente poluentes suiniculturas, sendo particularmente exposto nesta investigação o caso de várias populações do distrito de Leiria, particularmente na zona da Ribeira dos Milagres, que se sentem afectadas nos seus modos de vida e na ausência de qualidade ambiental das zonas onde vivem devido à existência de muitas suiniculturas.

Veja em www.TVANIMAL.org o vídeo O Que Tem Realmente no Seu Prato?”

Monday, February 05, 2007

Ecologia Profunda


Ecologia Profunda



O conceito de Ecologia Profunda, quase praticamente desconhecido no nosso contexto referencial, é, na minha opinião, um conceito de importância primordial no sentido de se compreender e reflectir sobre o que é o “ecologismo” actualmente. De uma forma geral, conceitos como ambientalismo, ecologismo estão bastante “toldados” por interpretações e visões algo superficiais, normalmente “simplificadas” (até passarem de um ponto de simplicidade para um ponto de superficialidade) pelos mass media, sobretudo os mais “mass”, muito empenhados em reduzir a reflexão ao “mínimo dominador comum” ...

Pessoalmente, uma das questões que me parecem mais relevantes, é a forma como a “ecologia” é integrada na nossa sociedade, sobretudo o grau de importância (ou imensa falta dela) que lhe é atribuída ... a forma como é vista quase como uma questão lateral e acessória quando, na verdade, creio que é muito mais a essência primordial de tudo o que somos, fazemos e pensamos (ou deveríamos, talvez, pensar) ...

a forma como se estrutura o nosso habitat (ambiental e social), o nosso relacionamento com os outros indivíduos e espécies, e, antes de tudo o mais, o nosso relacionamento primordial com todos os elementos naturais, a Terra, a Água, o Ar, o Fogo ...

esta breve divagação surge a propósito da “Ecologia Profunda” ... que preconiza, isto dito de forma algo simples, um retorno às raízes primordiais, a uma maior compreensão ecológica e empatia entre o ser humano e o meio ambiente em que vive ...

por sua vez, isto a propósito de um dos livros mais relevantes e importantes do ecologismo actual e, por inerência, e na óptica de todas as divagações anteriores, uma das obras mais fundamentais para compreendermos quem somos e o nosso mundo actual

é até incrível como uma obra tão inspiradora consiga passar quase tão discreta no nosso país ... ainda mais incrível seria caso não soubéssemos já o que “a casa gasta”.

Se fosse um obra repleta de banalidades, mas assinada por um qualquer guru da domesticação das massas, provavelmente seria super badalada em todos os órgãos de comunicação social ... mas isso já são divagações ... fica o essencial para quem quiser realmente pensar, reflectir, compreender, questionar e, talvez, desenvolver uma profunda ecologia do ser no seu próprio dia-a-dia e existência.



http://www.sempreempe.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=14&Itemid=60



Bill Devall e George Sessions, Ecologia Profunda – Dar Prioridade à Natureza na Nossa Vida (Águas Santas: Edições Sempre em Pé, 2004)


Ética Ambiental: Ecologia Profunda

No movimento ambientalista e na filosofia ambiental coexistem várias correntes. A edição próxima e recente de dois livros sobre Ecologia Profunda e Ética Ambiental vêm despertar o interesse por estas perspectivas, por cá pouco conhecidas e debatidas.

"Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido", escreveu Thoreau no seu "Walden ou A Vida nos Bosques". Thoreau que foi um dos inspiradores da Ecologia Profunda. Como Ralph Waldo Emerson ou, noutros domínios, Aldo Leopold ou ainda Espinosa e o seu Panteísmo, conforme refere Jorge Marques da Silva na sua análise incluída no livro "Éticas e Políticas Ambientais" organizado por Cristina Beckert e Maria José Varandas.

Autores de referência da Ecologia Profunda há três: o fundador Arne Naess, George Sessions e Bill Devall. Este dois últimos, autores de um livro recentemente editado em Portugal, "Ecologia Profunda - Dar Prioridade à Natureza na Nossa Vida".

Mas afinal o que é a Ecologia Profunda? O Jornal Quercus Ambiente foi procurar saber mais sobre esta corrente, em leituras e em conversa com Cristina Beckert, presidente da Sociedade de Ética Ambiental e professora de filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A natureza como um todo

"A ecologia profunda surge nos anos setenta, com um artigo de Arne Naess, um norueguês, que pela primeira vez distinguiu entre aquilo que designou como Shallow e Deep Ecology, portanto uma Ecologia Superficial e uma Ecologia Profunda. E, a partir daí, de algum modo esta terminologia passou a ser adoptada", conta Cristina Beckert. E desenvolve: "O que é que este autor entende por Ecologia Superficial e Ecologia Profunda? No fundo, a Ecologia Superficial, para o autor, são aquelas preocupações ambientais que estão fundamentalmente centradas em preservar os recursos naturais para a utilização do ser humano. O que interessa é a preservação do/pelo desenvolvimento humano e não propriamente a natureza em si. Ora, aquilo que ele propõe é precisamente uma atitude diversa, ou pelo menos mais profunda, daí é que adoptaram a designação de Ecologia Profunda, no sentido de a nossa relação com a natureza não ser uma relação meramente superficial, quase que de instrumentalização da natureza para os nossos interesses, mas que consiste antes em ver na natureza um valor em si mesmo, ou seja há um valor intrínseco da natureza. Esta atitude implica sobretudo uma crítica e um pôr um causa da tendência antropocêntrica de toda a cultura ocidental, com algumas excepções, como é óbvio, e implica uma atitude holista, de ver a natureza como um todo, ver o ser humano como parte integrante da natureza e não como um ser à parte, fora da natureza, que a domina e que a controla".

Este questionar amplo é o que Jorge Marques da Silva realça na distinção entre Ecologia Profunda e Ecologia Superficial, considerando que esta está sobretudo relacionada com o "nível de problematização alcançado pelos indivíduos, isto é, à extensão em que podem e conseguem, de facto, coerente e consistentemente, ligar as suas visões, práticas e acções às suas crenças últimas ou assumpções fundamentais".

O autor esclarece ainda que a expressão Ecologia Profunda, considerada uma corrente da Ética Ambiental, tem sido utilizada "para designar três objectos distintos", o que por vezes tem criado alguma confusão: "o meta-movimento ambientalista e os estilos de vida associados à Plataforma para a Ecologia Profunda; a metodologia de aprofundamento das problemáticas e soluções para a crise ambiental desenvolvida por Arne Naess; e a filosofia ambiental por ele criada, (seu) fundamento último para a acção ambientalista, designada por Ecosofia-T".

Auto-realização e igualdade biocêntrica

De acordo com Bill Devall e George Sessions, dois autores de referência da Ecologia Profunda, "Arne Naees elaborou duas normas últimas, ou intuições, as quais não podem ser derivadas de outros princípios ou intuições". Segundo os autores, "chega-se até elas pelo processo do interrogar profundo", que Jorge Marques da Silva designa por "inquérito ontológico sobre a natureza da Natureza", opondo-o a outros da Ética Ambiental, "sobre o valor da Natureza". Essas normas últimas são a auto-realização e a igualdade biocêntrica.

Para Bill Devall e George Sessions a auto-realização começa "quando deixamos de nos compreender a nós próprios como egos isolados e em competição estreita, e nos começamos a identificar com outros seres humanos" mas exige "uma maturidade e um crescimento maiores ainda, uma identificação que ultrapassa a humanidade, até incluir o mundo não humano". Por sua vez, a "intuição da igualdade biocêntrica consiste em pensar que todas as coisas na biosfera têm um direito igual a florescer, e a alcançar as suas próprias formas individuais desabrochadas, o direito à auto-realização no interior de uma mais vasta realização do Eu. Essa intuição básica é a de que todos os organismos e entidades da ecosfera, enquanto partes inter-relacionadas do todo, são iguais em valor intrínseco".

As duas normas últimas, para estes dois autores, "sugerem uma visão da natureza da realidade, e do nosso lugar como indivíduos (muitos num só) no mais amplo esquema das coisas". Têm também diversas implicações, contrastantes com a visão dominante do mundo, de domínio da natureza pelo homem, propondo uma nova harmonia. Por isso, Arne Naess e George Sessions procuraram definir uma síntese dos seus pensamentos e suas implicações em oito princípios básicos, abertos, nos quais se baseia a vertente prática da Ecologia Profunda.

Eco-regionalismo

De acordo com Cristina Becker a Ecologia Profunda "tem diversas manifestações, a nível político, económico, social, filosófico, religioso". Segundo a presidente da Sociedade de Ética Ambiental, "o que preconizam fundamentalmente é, a nível do poder, uma descentralização, que designam como eco-regionalismo. Dar o poder às comunidades, às pequenas comunidades. Isto implica por sua vez um grande respeito pela preservação da diversidade, não só biológica mas também cultural, que obviamente com a tendência para a globalização vai desaparecendo cada vez mais. Portanto, o que está aqui posto em causa é toda a macroeconomia, a macropolítica, na perspectiva da reabilitação dessas pequenas comunidades com a sua identidade própria. A nível social, fazem uma crítica muito acérrima à sociedade consumista. O que nos dizem é que há necessidades básicas do ser humano, que não são só comer, e dormir e vestir, envolvem um leque de algum modo vasto, mas não tão vasto como as sociedades de consumo pretendem. As sociedades de consumo criam necessidades. É precisamente contra este excesso de necessidades a serem satisfeitas que se insurgem. Consideram que há que limitar um leque de necessidades realmente humanas, que pertencem ao ser humano, e acabar com esse supérfluo de criação de contínuas necessidades para consumo. Isto implica por sua vez, uma filosofia de vida muito virada para a auto-suficiência, tanto individual como comunitária. Claro que muitos apelidam isto de uma utopia".

Nesta perspectiva "as tecnologias são toleradas, desde que não ponham em causa esse equilíbrio da natureza, do todo. Há uma opção clara ou por um mínimo de tecnologia possível ou por aquela tecnologia que não é prejudicial à natureza, como as tecnologias alternativas, que não são agressivas para a natureza".

Segundo Cristina Beckert, para os defensores desta corrente, "a nossa sociedade está toda ela sustentada, digamos assim, pela tecnociência. Eles procuram pôr em causa a validade e, em última instância, a eficácia desse modelo técnico-científico, e propor um estilo de vida que tem uma sabedoria muito própria e pessoal de cada um. Do ponto de vista estritamente religioso, eles procuram inspiração em várias fontes religiosas".

Em Portugal não existe que se saiba, uma expressão organizada que se reclame da Ecologia Profunda. Existem, diz-nos Cristina Beckert "comunidades organizadas segundo estes ideais nos Estados Unidos. É difícil a sua subsistência, mas parte de defender um ideal é sobretudo conseguir levá-lo à prática. Agora, sobretudo é óbvio que estas correntes têm a função de agitar as mentalidades, a função crítica, de chamar a atenção. E obviamente também pelo exemplo. Não me parece possível levar estritamente à letra, se quisermos, este ideal. Mas como ideal ou como utopia que serve para mexer com as pessoas parece-me positivo".

O que existe no nosso país é a corrente mais ampla da Ética Ambiental, nomeadamente com a Sociedade de Ética Ambiental que, como nos informa Cristina Beckert, "surgiu por volta de 2000 e é uma sociedade que se disse sempre de retaguarda, no sentido de que procura reflectir sobre estas questões de valores, de ideias, de categorias, e não de intervenção imediata".

Sofia Vilarigues
QUERCUS Ambiente nº. 16 (Outubro 2005)


Fonte:

http://www.quercus.pt/scid/webquercus/defaultArticleViewOne.asp?categoryID=601&articleID=1482



Apesar de visão antropocêntrica ser e ter vindo a ser predominante ao longo da história, existem exemplos de civilizações particularmente inspiradoras que desenvolviam e desenvolvem uma forma de pensar essencialmente biocêntrica. Diversas correntes de pensamento, ou filosofias de pensamento (como se preferir designar), provenientes do que nós chamamos de Oriente, por exemplo, constituem exemplos muitos pródigos de visões do mundo e da própria Natureza com um cariz acentuadamente biocêntrico. Correntes de pensamento como o Budismo e o Hinduísmo cultivam um profundo respeito por todas as formas de vida. Determinadas correntes do Catolicismo também, sendo por exemplo S. Francisco de Assiz uma figura histórica a esse nível exemplar. Os designados povos Primeros, muitas vezes classificados pelos colonos europeus como selvagens, possuíam, na realidade, estilos de vida onde normalmente existia um profundo respeito pela Natureza e todas as acções decorriam no sentido de não causar desequilíbrios ecológicos, ainda que provavelmente esta definição nem sequer existisse. Aliás o livro “Ecologia Profunda” consegue abordar de forma particularmente pertinente e cativante esses dados, oferecendo, ao mesmo tempo, uma visão extremamente didáctica dos princípios inerentes à própria ecologia profunda, na qual alguns dos principais elementos inspiradores são precisamente essas culturas.

in Pereira, Pedro Jorge; “Be the Change you Want to See - uma outra perspectiva do mundo através do voluntariado”, (Porto, Planeta Terra: GAIA, 2006) p.146

Monday, January 15, 2007

pedalando na Terra pela Terra


A questão das “alterações climáticas” continua na ordem do dia, provavelmente não tanto quanto deveria ... creio que um dos maiores “obstáculos” à compreensão da questão, ou pelo menos de compreensão das suas dimensões, é na verdade a forma algo tecnocrática como a questão continua a ser abordada, com discussões técnicas e retécnicas de calculos, estimativas, previsões, percentagens ... parece que no meio de tudo isso se esquece do essencial: as alterações climáticas são um desastre planetário, e ainda que os sintomas por agora sejam ainda algo discrtos, vão-se reflectir de forma abrupta no nosso bem estar social e ambiental, o clima da Terra está a mudar de uma forma desastrosa, e somos inequivocamente o principal motivo dessas mudanças ... custa a perceber, que não pela ganância, esta doentia política de negação ...

bom, toda esta reflexão para dizer que se somos nós uma das principais causas do problema, a verdade é que também podemos \ devemos ser uma das principais soluções: e existe uma solução bem simples no que diz respeito à questão da mobilidade:

deslocarmo-nos sem poluir, pedalando!!!

que saudades das estações na República Checa repletas de bicicletas, para quando em Portugal? Por mim diria: para já, e por mim e mais um bicicleteiros assim será ;O)


http://massacriticapt.net/


Um dos paradigmas mais enraizados na nossa sociedade é o do individualismo. Nesse sentido, possuir um veículo automóvel próprio é considerado como um sinal de emancipação e de afirmação do indivíduo. Também com base nesse paradigma, em Portugal, a quase totalidade das políticas de (i)mobilidade urbana e viária, energéticas, económicas, etc., são concebidas em função dos veículos automóveis, sobretudo dos privados. Existe, simultaneamente, um modelo energético baseado no consumo de um recurso não renovável - o petróleo - com impactos brutais inerentes à sua extracção, transporte e utilização. Actualmente, essa política energética um dos mais sérios obstáculos à implementação de modelos de desenvolvimento verdadeiramente sustentáveis. Ao nível do planeamento e implementação das mais diversas políticas, provavelmente devido ao poder cada vez maior de determinados interesses económicos a ele associados – numa sociedade ferozmente regulada por mecanismos financeiros -, o automóvel é tido como a única alternativa credível: constróiem-se mais estradas porque há mais carros, por um lado, e há ainda cada vez mais carros porque há mais estradas, por outro, entre outros incentivos constantes à utilização dos veículos automóveis.A circulação automóvel (sobretudo numa óptica privada, em que os próprios transportes públicos tornam-se menos atractivos por força da ausência de políticas sérias de investimento no transporte público) cresce de forma insustentável (sendo que a construção de mais estruturas viárias só agudiza esta situação já de si caótica) e possui impactos ambientais, sociais e humanos, nomeadamente ao nível da própria saúde pública, verdadeiramente incalculáveis.”

in Pereira, Pedro Jorge; “Be the Change you Want to See - uma outra perspectiva do mundo através do voluntariado”, (Porto, Planeta Terra: GAIA, 2006) p.35

Friday, December 22, 2006

O consumo nosso de cada dia... em dia de Natal


O consumo nosso de cada dia... em dia de Natal

http://gaia.org.pt/econatal/

As grandes firmas de relações públicas, de publicidade, de artes gráficas, de cinema, de televisão ... têm, antes de mais, a função de controlar os espíritos. É necessário criar "necessidades artificiais" e fazer com que as pessoas se dediquem à sua busca, cada um por si, isolados uns dos outros. Os dirigentes dessas empresas têm uma abordagem muito pragmática: "É preciso orientar as pessoas para as coisas superficiais da vida, como o consumo." É preciso criar muros artificias, aprisionar as pessoas, isolá-las umas das outras. (1)”

O consumo encontra-se instituído, na sociedade moderna e dita ocidental em que nos inserimos, como um valor cultural, como um elemento intrínseco ao(s) nosso(s) estilo(s) de vida e que nos caracteriza enquanto indivíduos. Na realidade, os princípios e práticas inerentes ao consumo, toda a sua dimensão sociológica e utilidade prática no seio do modelo ideológico neoliberal, passam ainda despercebidos à generalidade dos indivíduos e possuem uma preponderância crucial mas subliminar, profunda mas sonegada, na forma como os indivíduos se concebem (e são concebidos) enquanto seres sociais.

O consumo, por definição, é uma actividade que pressupõe a satisfação - geralmente por intermédio de uma troca financeira - de um conjunto de necessidades mais ou menos essenciais dos indivíduos. O cerne da questão é precisamente esse: quem é que determina o que é de facto uma necessidade essencial? Sendo todo o contexto social e cultural fulcral na forma como os seus valores são absorvidos - normalmente de uma forma inconsciente e automática - pela generalidade dos indivíduos, pode-se desde logo presumir que num contexto de acelerada globalização, em que o "American Way of Life" funciona como modelo cultural, social e económico homogenizador, também os conceitos a ele inerentes, como o do consum(ism)o, obedecem à mesma lógica de acentuada "mercantilização" da vida e das relações humanas à escala global.

Ou seja, a utilidade do consumo, numa lógica liberal, está muito longe de se esgotar nessa finalidade "básica" e até "anacrónica" de satisfação de necessidades essenciais à vida humana ou, eventualmente, nem será essa a sua finalidade mais fundamental: um dos principais propósitos do consumo será o de preencher todo o vazio social decorrente da eliminação das formas de socialização e de identidade colectiva anteriores à "revolução" neoliberal. Mais até do que preencher o vazio, a sua utilidade no seio do sociedade global é a de substituir - ele próprio - essas formas, condicionando os indivíduos no sentido de participarem socialmente de uma maneira extremamente conveniente para toda a dinâmica do sistema. Isso só é possível através de diversos mecanismos de comunicação e condicionamento de massas de entre os quais a publicidade será talvez o mais significativo, ou pelo menos um dos mais comuns.

Por outras palavras, de tão precário e volátil que o emprego se tornou, tendo a componente produtiva das empresas sido deslocada para países designados de 3ªmundo (onde estas ficam de forma quase plena a salvo de medidas protectoras dos direitos laborais e, por exemplo, leis de protecção ambiental) tendo a vida social, cultural e colectiva sido esvaziada de conteúdo por um paradigma de pensamento essencialmente economicista, nomeadamente seguindo
pressupostos de apropriação individual de bens materiais, resta ao indivíduo essa função de consumidor. O consumo enquanto princípio existencial, valor de pensamento e projecto de vida. O consumo enquanto meio e fim. Do ponto de vista económico, é um consumo ilimitado que permite manter as taxas de crescimento económico que se encontram na base de todo o sistema financeiro especulativo mundial, isto ao mesmo tempo que os recursos são cada vez mais escassos e, por muito que possa custar perceber, finitos ...

Uma pequena elite ávida de poder, ganância e zeros na conta bancária que continua, com a nossa conivência quase plena, a conduzir os destinos da quase totalidade da população mundial ao mesmo tempo que a Terra de todos nós, e de ninguém em particular, se continua a degradar por via de uma impiedosa exploração parasitária e insaciável.

O consumo possui hoje, portanto, um significado prático e sociológico primordial em todo um contexto determinado por um liberalismo adoptado à escala mundial: muito para além da sua função "pré-histórica" de satisfação de necessidades essenciais, actualmente, as supostas necessidades dos indivíduos - necessidades desde logo, muitas delas, artificialmente criadas pelos poderosos departamentos de marketing das principais corporações – são o pretexto ideal para reproduzir a disseminar o consumo enquanto instituição teológica, dogma cultural e mecanismo prático de alienação colectiva, mas por via de um crescente processo de feroz competição e estratificação individual materialista.

O consumo surge como conduta activa e colectiva, como coacção e moral, como instituição também. Compõe todo um sistema de valores, com tudo o que este termo implica enquanto função de integração do grupo e de controlo social. (2) Ao Domingo já não vamos à missa, vamos ao “shopping”.

Num contexto em que os mecanismos susceptíveis de modificar e configurar toda a conjuntura mundial se encontram, de uma forma ou de outra, apropriados por um conjunto restrito de poderosas corporações - detidas por um grupo restrito de indivíduos - e quando os mecanismos democráticos convencionais são cada vez menos representativos e cada vez mais inócuos - numa sociedade que tende para a homogeneização através desse propósito comum a todos que é o de consumir - um dos poucos fenómenos que parece, ainda, atribuir alguma importância ao indivíduo comum é, exactamente, o consumo. Enquanto consumidores somos teoricamente bajulados por todo o género de promoções e mimos publicitários, técnicas e tácticas de propaganda várias.

Aturdidos que estamos nesse "propósito colectivo" e paradoxalmente ferozmente individualizante que é o de consumir, a nossa consciência social, humana e ecológica é, sobremaneira, alienada e as próprias consequências inerentes ao consumo estão muito longe de ser percepcionadas por todos nós, elos cruciais que somos nas relações existentes entre as deploráveis condições produtivas nos sítios mais remotos do mundo (destruição de habitats naturais, situações de exploração laboral, mecanismos económicos de neocolonialismo) e as condições de consumo, sobretudo nos países economicamente mais poderosos, dado que somos nós que adquirimos esses produtos. Mas é importante salientar que também aí, nos países ditos desenvolvidos, existam enormes disparidades sociais e o próprio consumo não decorre de forma homogénea mas sim, e cada vez mais, é ele próprio sintomático da existência de estruturas socais piramidais, com enormes disparidades entre o topo e as bases.

Enquanto as “classes” do topo consomem produtos obscenamente luxuriosos e altamente ostentatórios, as classes das “bases” não deixam de poder participar no grande festim consumista liberal com uma cada vez maior proliferação de lojas de produtos chineses fabricados, por norma, em condições ambientais e laborais deploráveis. Mas no entanto baratos, e é isso que importa claro.

As repercussões de todo o sistema e do próprio consumo ao nível cultural também não são inestimáveis. Toda a nossa paisagem cultural, as cidades, as estradas, as ruas, os meios de comunicação, estão repletas de mensagens publicitárias induzindo mais e mais consumo. Um consumo obstinado, nada ético e que prejudica muito mais a vida e os seres vivos do que é realmente útil. Consumimos mais, muito mais, por consumir do que propriamente por necessitarmos de facto de satisfazer uma qualquer necessidade real, ou pelo menos uma necessidade que nos traga mais do que uma efémera sensação de felicidade.

Na economia mundial, os ricos tornam-se cada vez mais ricos. Vinte por cento do mundo consomem 80 por centro dos recursos - são dados do Banco Mundial. (O mundo) está cada vez mais nas mãos de 300 ou 400 famílias. Três famílias americanas - entre as quais a de Bill Gates - têm o equivalente ao produto nacional bruto, de cada ano, de 48 estados africanos que representam 600 milhões de pessoas. (3)

O que só demonstra esse propósito bem claro que o consumo adquire hoje, ou seja, o consumo do cidadão comum - cada vez mais restringido em termos de escolhas, dado que cada vez menos e mais poderosas corporações controlam cada vez mais sectores da economia - é o tributo que temos de pagar a esses novos senhores feudais globais. Isto os que podem pagar esse tributo mínimo e não se vêm atirados para o lodo da segregação social.

Como se não bastasse, e só para elucidar ainda melhor acerca da natureza doentia do consum(ism)o, a ONU calcula que o conjunto das necessidades básicas de alimentação, água potável, educação e cuidados médicos da população mundial poderia ser coberta com uma taxa de menos de 4% sobre a riqueza acumulada das 225 maiores fortunas. Satisfazer os requisitos básicos de água e saneamento de todo o mundo custaria apenas 13 biliões de dólares, sensivelmente, a mesma quantia que a população dos Estados Unidos e da União Europeia despende anualmente em perfume.(4)

A questão que urge colocar é como chegámos a este ponto de perversidade? Como é que chegamos a um ponto em que consideramos mais natural o nosso direito a adquirir produtos, mais ou menos, supérfluos de cosmética do que o direito de milhões de seres vivos a uma vida condigna?

Porque a preponderância do consumo apesar de bastante subliminar não é inocente, bem pelo contrário, nós, enquanto consumidores, possuímos uma importância muito relevante quando tomamos as decisões relativas àquilo que compramos e que utilizamos. Por vezes “pequenas” grandes opções podem, de facto, fazer bastante diferença. Existem diferenças enormes entre adquirirmos um produto fabricado na China em condições, em grande parte dos casos, deploráveis e de manifesta exploração laboral e ambiental, e um produto fabricado, por exemplo, localmente em condições das quais temos boas possibilidades de estar informados. Por quem, em que condições, com que materiais, em suma: com que pegada ecológica e social?

Em Portugal, país onde a proliferação de grandes centros comerciais e afins não cessa de aumentar, a fúria consumista é particularmente selvagem e alienadora, com os apelos e induções agressivas ao consumo a aumentaram ao mesmo ritmo que as condições sociais e também ambientais se deterioram de forma muito acentuada, mesmo que esse consumo mais não signifique do que alienação colectiva, destruição e enorme desgaste de habitats naturais, assim como lucros chorudos para grandes corporações empresariais ao mesmo tempo que o comum trabalhador é cada vez mais precário e explorado.



O Natal,



Numa época natalícia, em que o aliciamento ao consum(ism)o adquire contornos de verdadeiro fenómeno de psicose colectiva, urge lançar as bases de reflexão sobre aquilo que nós próprios somos enquanto seres sociais. Será que vamos, em letárgicas visitas aos hipermercados ou mega centros comerciais, continuar a aceitar o papel de meros consumidores apáticos, e reduzir toda as nossas dimensões pessoais, sociais, humanas a uma mera escala de bens materiais que nos pretendem fazer crer ser essenciais para a nossa vida e felicidade?

Será que não podemos acreditar que uma sociedade que se designa por "de consumo", ou seja, descartável, despojada de conteúdo, desumana, se torne numa sociedade bem mais igualitária, fraterna e solidária para todos os seres?

A mudança começa em cada um de nós, na forma como pensamos, agimos e, cada vez mais, na forma como compramos também. Apesar de ser para nós a mais comum, a verdade é que existem muitas outras formas de satisfazer as nossas necessidades mais elementares, algumas delas até sem recurso ao acto de comprar propriamente dito. Possibilidades como a auto-produção, a troca, aprendermos a viver mais e mais com menos apesar de não tanto conhecidas não deixam por isso de ser menos válidas. Mesmo comprando, há muitos possibilidades de o fazermos de forma mais reflectida e moderada, nomeadamente recorrendo a modelos de comércio alternativo, nomeadamente Comércio Justo, Produtos Ecológicos e reutilizados, feitos de materiais reciclados, instituições não governamentais, sistemas de crédito não monetário, comércio de pequena escala e familiar, comércio tradicional. Originalmente o dinheiro seria como um meio intermediário das trocas comerciais. Gradualmente, e sobretudo no âmbito da nova ordem liberal, tem-se vindo a tornar num fim cada vez mais obstinado capaz de nos tornar totalmente dependentes e egoístas.

Não é por isso de admirar que, justamente em nome do dinheiro, os nossos comportamentos de consumo sejam em larga medida “irresponsáveis” e artificialmente ampliados, sem que nada disso nos traga uma felicidade que não uma meramente ilusória. É tempo de comprarmos somente aquilo que verdadeiramente necessitamos para nos podermos sentir felizes, de comprarmos somente os produtos que por detrás da publicidade, das prateleiras repletas de mil cores, das promoções e mais promoções, têm uma verdadeira história da qual se podem orgulhar, e não uma história das que chegam até nós muito mal contadas e até totalmente sonegadas: de milhares de trabalhadores do dito terceiro mundo praticamente escravizados, de multinacionais gananciosas e obstinadas em controlar o comércio mundial, de habitats naturais completamente devastados. Histórias que nós não queremos mais ouvir e ser coniventes. Podemos ser nós próprios, no simples acto de comprar, a escrever uma nova história bem mais bonita, bem mais humana, bem mais de acordo com o mundo, que no mais íntimo de nosso coração, nos atrevemos a conceber e sonhar. Todo o mundo é composto de mudança, e a mudança somos nós próprios, nós somos a mudança que queremos ver no mundo!

Para um Natal diferente, um site repleto de ideias e criatividade para um Natal não consumista e verdadeiramente natalício:

http://gaia.org.pt/econatal/

A propósito do consumo e da globalização, consumo e publicidade um livro absolutamente essencial: No Logo, de Naomi Klein, ed: Relógio de Água

(1) Chomsky, Noam. Duas horas de lucidez. Mem Martins, Editorial Inquérito.
(2) Baudrillard, J. (1996). A sociedade de consumo. Lisboa, Edições 70.
(3) Zanotteli cit. in. Marujo, A. (2003). Missionário "mais incómodo" de Itália quer igreja empenhada contra armamento, Público, nº4671 / 5 de Janeiro de 2003, pp. 21.
(4) Ramonet, I. (1998). The politics of hunger. [Em linha]. Disponível em <
http://mondediplo.com/1998/11/01leader>. [Consultado em 10/01/2003].

versão inicial publicada em: http://pt.indymedia.org/ler.php?numero=29302&cidade=1


Tuesday, December 19, 2006

A Consciência da Massa


A Cris deu-me a descobrir um texto que, de forma tão primordial, foi capaz de exprimir em verbos, palavras, pensamentos com os quais tão frequentemente me encontro e reencontro sem ser muito capaz de os fazer-se manifestar ... abordei-os em “Be the Change” e foram até cruciais na forma como se estruturou todo o projecto ... no fundo andam “à volta” daquilo que são os padrões “normalizados” de pensar, no que são as normas sociais e culturais da sociedade em que nos inserimos e suas múltiplas implicações ...


Pessoalmente, tenho a convicção de que quando a humanidade atinge este ponto de desumanidade é tempo de parar para pensar naquilo em que nos tornámos e, sobretudo, colocar em causa aqueles que são os padrões de pensamento dominantes. Foi isso que uma grande parte dos portugueses, se calhar a maioria, não fez durante a ditadura fascista, e por isso mesmo tivemos todos aqueles anos de fascismo retrógrado e reaccionário. Foi isso que provavelmente a maior parte dos alemães não fez durante o nazismo. Foi isso que talvez uma grande parte dos soviéticos não fez durante o regime totalitário estalinista. É isso que talvez uma grande parte de nós não faça hoje numa época de acentuado liberalismo económico onde por vezes é mais legítimo um milionário ter uma piscina repleta de água para as suas festas “socialite” do que milhares de pessoas matarem a sede. Vivemos uma época onde se aceita com enorme “naturalidade” a escala de desigualdades e mesmo a “desumanidade” a que chegámos. A perda de vidas humanas, ainda que causada por motivos que muitas vezes se prendem com a enorme injustiça social que existe e uma criminosa distribuição de recursos, é para nós como que banal e aceite de forma totalmente passiva.

Talvez seja tempo de parar para pensar. De parar para pensar em que mundo é que queremos viver e se este está tão bem quanto nos parece (enquanto tivermos consola de vídeo jogos, automóvel e dinheiro para ir às compras no centro comercial).”


in Pereira, Pedro Jorge; “Be the Change you Want to See - uma outra perspectiva do mundo através do voluntariado”, (Porto, Planeta Terra: GAIA, 2006) p.52


A Consciência da Massa

por Nuno Michaels

http://www.nunomichaels.com/


Uma das verdades mais fundamentais - e no entanto mais difíceis de compreender - é a de que as pessoas vivem todas em diferentes níveis de consciência.

Não se assimila esse Ensinamento nas suas mais profundas implicações apenas lendo ou pensando sobre ele; há que observar a maneira como as pessoas agem, pensam, falam, sentem, reagem, vivem. O que lhes ocupa o pensamento. Como usam o tempo. O que as preocupa. Os objectivos que têm na vida. Aquilo de que falam. E então torna-se evidente que todas vivem em diferentes níveis de consciência e, até, o nível de consciência em que vivem.

A grande maioria da Humanidade vive num nível biológico-social instintivo. Nesse nível, as pessoas são condicionadas pelos valores vigentes e pela mentalidade comum. As suas identidades são uma mera extensão das normas, crenças, costumes e tabus da sociedade em que nasceram. Vivem polarizadas na sobrevivência e, se possível, na acumulação de dinheiro, poder e estatuto. No mínimo, precisam de um emprego seguro e um parceiro para acasalar e reproduzir-se. Odeiam a solidão.

Não têm ideias ou pensamentos originais; falam do que toda a gente fala, têm as opiniões que os meios de comunicação, os líderes de opinião e o status quo querem que tenham. Lêem jornais desportivos e revistas sobre programas de televisão, falam sobre pessoas e acontecimentos triviais do dia-a-dia. Gostariam que o mundo mudasse mas não começam por si próprios. Não questionam o que lhes é dito; se os seus líderes lhes dizem que os afegãos são maus e os astrólogos mentirosos, então os afegãos são maus e os astrólogos mentirosos. Assim, bovinamente, sem sequer investigarem o assunto. Consomem bens e serviços de que não precisam de facto e cujo único valor é o próprio acto de serem adquiridos e o estatuto que lhes está associado - na ilusão de que serão mais no dia em que tiverem mais.

Vivem vidas inteiras repetindo os mesmos padrões mentais e emocionais, submersos na sua própria subjectividade e incapazes de se verem objectivamente. Não fazem ideia do que são "energias", "arquétipos" ou "padrões". Não fazem ideia de que a vida é um processo de crescimento e desenvolvimento pessoal e não uma luta pela sobrevivência.

São os autómatos de que o sistema precisa para assegurar a sua reprodução e a manutenção das suas próprias estruturas. Constituem a "consciência da massa".

Libertarmo-nos da consciência da massa tem um preço muito alto. Porque os valores da sociedade são redutores, mas dão segurança - a mesma segurança que um rebanho dá a uma ovelha.

Evoluir para outro nível de consciência implica questionar e pensar por si mesmo; implica ser incompreendido e ridicularizado por quem não vê mais longe. Implica conviver com as conversas ocas, mecânicas, de quem nos rodeia. Implica ser livre. E a sociedade não gosta de indivíduos livres, porque são uma falha no sistema e um mau exemplo para os autómatos - e esses é que fazem falta, para que tudo isto funcione..."

Nuno Michaels
http://www.nunomichaels.com/


Monday, December 18, 2006

a Cidade


*Improviso ordinário sobre a Cidade Maravilhosa*


Uma cidade é

um amontoado de gente sem terra.

Antes não, nem tanto, antes

havia quintal e no Campo de Santana

as negras lavadeiras

estendiam na grama a roupa enxaguada.

Ah, que saudades de ver roupa na grama!

Já não,

já não que a lira tenho desatinada

e a voz enrouquecida

e não do canto

mas de ver que venho

falar de uma cidade endurecida,

falar de uma cidade poluída

falar de uma cidade

onde a vida é

cada dia menos do que a vida:

asfalto asfalto asfalto

e mais assalto

na Tijuca, na Penha, na Avenida

Nossa Senhora de Copacabana

em pleno dia.

Uma cidade

é um amontoado de gente que não planta

e que come o que compra

e pra comprar se vende.


[passagem de poema de Ferreira Gullar, Na Vertigem do Dia]



Saturday, November 25, 2006

Dia Sem Compras - o consumo nosso de cada dia...











o consumo nosso de cada dia...

As grandes firmas de relações públicas, de publicidade, de artes gráficas, de cinema, de televisão ... têm, antes de mais, a função de controlar os espíritos. É necessário criar "necessidades artificiais" e fazer com que as pessoas se dediquem à sua busca, cada um por si, isolados uns dos outros. Os dirigentes dessas empresas têm uma abordagem muito pragmática: "É preciso orientar as pessoas para as coisa superficiais da vida, como o consumo." É preciso criar muros artificias, aprisionar as pessoas, isolá-las umas das outras. (1)

O consumo encontra-se instituído, na sociedade moderna e ocidental em que nos inserimos, como um valor cultural, como um elemento intrínseco aos nossos estilos de vida e que nos caracteriza enquanto indivíduos. Na realidade, os princípios e práticas inerentes ao consumo, toda a sua dimensão sociológica e utilidade prática no seio do modelo ideológico neoliberal, passam ainda despercebidos à generalidade dos indivíduos e possuem uma preponderância crucial mas subliminar, profunda mas sonegada, na forma como os indivíduos se concebem (são concebidos) enquanto seres sociais.

O consumo, por definição, é uma actividade que pressupõe a satisfação - geralmente por intermédio de uma troca financeira - de um conjunto de necessidades, mais ou menos, essenciais dos indivíduos. O cerne da questão é precisamente esse: quem é que determina o que é de facto uma necessidade essencial? Sendo todo o contexto social e cultural fulcral na forma como os seus valores são absorvidos, normalmente de uma forma inconsciente e automática, pela generalidade dos indivíduos, desde logo, pode-se presumir que num contexto de acelerada globalização, em que o "American Way of Life" funciona como modelo cultural, social, económico homogenizador, também os conceitos a ele inerentes, como o do consumo, obedecem à mesma lógica de acentuada "mercantilização" da vida e das relações humanas à escala global.

Ou seja, a utilidade do consumo, numa lógica liberal, está muito longe de se esgotar nessa finalidade "básica" e até "anacrónica" de satisfação de necessidades essenciais à vida humana ou, eventualmente, nem será essa a sua finalidade mais fundamental: um dos principais propósitos do consumo será o de preencher todo o vazio social decorrente da eliminação das formas de socialização e de identidade colectiva anteriores à "revolução" neoliberal. Mais até do que preencher o vazio, a sua utilidade no seio do sociedade global é a de substituir - ele próprio - essas formas, condicionando os indivíduos no sentido de participarem socialmente de uma maneira extremamente conveniente para toda a dinâmica do sistema. Esse condicionamento só é possível através de diversos mecanismos de comunicação e condicionamento de massas de entre os quais a publicidade será o mais significativo.

Por outras palavras, tão precário e volátil que o emprego se tornou, tendo a componente produtiva das empresas sido deslocada para países designados de 3ªmundo, tendo a vida social, cultural e colectiva sido esvaziada de conteúdo por um paradigma de pensamento essencialmente economicista, nomeadamente seguindo
pressupostos de apropriação individual de bens materiais, resta ao indivíduo essa função de consumidor. O consumo enquanto princípio existencial, valor de pensamento e projecto de vida. O consumo enquanto meio e fim. Do ponto de vista económico, é um consumo ilimitado que permite manter as taxas de crescimento económico que se encontram na base de todo o sistema financeiro especulativo mundial, isto ao mesmo tempo que os recursos são cada vez mais escassos e, por muito que possa custar perceber, finitos ...

O consumo possui hoje, portanto, um significado prático e sociológico primordial em todo um contexto determinado por um liberalismo adoptado à escala mundial: muito para além da sua função "pré-histórica" de satisfação de necessidades essenciais, actualmente, as supostas necessidades dos indivíduos - necessidades desde logo, muitas delas, artificialmente criadas pelos poderosos departamentos de marketing das principais corporações – são o pretexto ideal para reproduzir a disseminar o consumo enquanto instituição teológica, dogma cultural e mecanismo prático de alienação colectiva, mas por via de um crescente processo de feroz competição e estratificação individual materialista.

O consumo surge como conduta activa e colectiva, como coacção e moral, como instituição. Compõe todo um sistema de valores, com tudo o que este termo implica enquanto função de integração do grupo e de controlo social. (2) Num contexto em que os mecanismos susceptíveis de modificar e configurar toda a conjuntura mundial se encontram, de uma forma ou de outra, apropriados por um conjunto restrito de poderosas corporações - detidas por um grupo restrito de indivíduos - e quando os mecanismos democráticos convencionais são cada vez menos representativos e cada vez mais inócuos, numa sociedade que tende para a homogeneização - através desse propósito comum a todos que é o de consumir -, um dos poucos fenómenos que parece, ainda, atribuir alguma importância ao indivíduo comum é, exactamente, o consumo. Enquanto consumidores somos teoricamente bajulados por todo o género de promoções e mimos publicitários, técnicas e tácticas de propaganda.

Aturdidos que estamos nesse "propósito colectivo" e paradoxalmente ferozmente individualizante que é o de consumir, a nossa consciência social, humana e ecológica é, sobremaneira, alienada e as próprias consequências inerentes ao consumo estão muito longe de ser percepcionadas por todos nós, elos cruciais que somos nas relações existentes entre as deploráveis condições produtivas nos sítios mais remotos do mundo (destruição de habitantes naturais, situações de exploração laboral, mecanismos económicos de neocolonialismo) e as condições de consumo, sobretudo nos países economicamente mais poderosos, dado que somos nós que adquirimos esses produtos. Mas é importante salientar que também aí, nos países ditos desenvolvidos, existam enormes disparidades sociais e o próprio consumo não decorre de forma homogénea mas sim, e cada vez mais, é ele próprio sintomático da existência de estruturas socais piramidais, com enormes disparidades entre o topo e as bases.

Enquanto as “classes” do topo consomem produtos obscenamente luxuriosos e altamente ostentatórios, as classes das “bases” não deixam de poder participar no grande festim consumista liberal, com uma cada vez mais proliferação de lojas de produtos chineses fabricados, por norma, em condições ambientais e laborais deploráveis.

As repercussões de todo o sistema e do próprio consumo ao nível cultural também não são inestimáveis. Toda a nossa paisagem cultural, as cidades, as estradas, as ruas, os meios de comunicação, estão repletas de mensagens publicitárias induzindo mais e mais consumo. Um consumo obstinado, nada ético e que prejudica muito mais a vida e os seres vivos do que é realmente útil. Consumimos mais, muito mais, por consumir do que propriamente por necessitarmos de facto de satisfazer uma qualquer necessidade real, ou pelo menos uma necessidade que nos traga mais do que uma efémera sensação de felicidade.

Na economia mundial, os ricos tornam-se cada vez mais ricos. Vinte por cento do mundo consomem 80 por centro dos recursos - são dados do Banco Mundial. (O mundo) está cada vez mais nas mãos de 300 ou 400 famílias. Três famílias americanas - entre as quais a de Bill Gates - têm o equivalente ao produto nacional bruto, de cada ano, de 48 estados africanos que representam 600 milhões de pessoas. (3)

O que só demonstra esse propósito bem claro que o consumo adquire hoje, ou seja, o consumo do cidadão comum - cada vez mais restringido em termos de escolhas, dado que cada vez menos e mais poderosas corporações controlam cada vez mais sectores da economia - é o tributo que temos de pagar a esses novos senhores feudais globais. Isto os que podem pagar esse tributo mínimo e não se vêm atirados para o lodo da segregação social.

Como se não bastasse, e só para elucidar ainda melhor acerca da natureza doentia do consum(ism)o A ONU calcula que o conjunto das necessidades básicas de alimentação, água potável, educação e cuidados médicos da população mundial poderia ser coberta com uma taxa de menos de 4% sobre a riqueza acumulada das 225 maiores fortunas. Satisfazer os requisitos básicos de água e saneamento de todo o mundo custaria apenas 13 biliões de dólares, sensivelmente, a mesma quantia que a população dos Estados Unidos e da União Europeia despende anualmente em perfume.(4)

A questão que urge colocar é como chegámos a este ponto de perversidade? Como é que chegamos a um ponto em que consideramos mais natural o nosso direito a adquirir produtos, mais ou menos, supérfluos de cosmética do que o direito de milhões de seres vivos a uma vida condigna?

Porque a preponderância do consumo apesar de bastante subliminar não é inocente, bem pelo contrário. No dia 25 de Novembro celebra-se a nível mundial o Buy Nothing Day, ou seja, "Dia sem compras", naquilo que constitui um desafio à abstinência em relação ao consumo por 24 horas, com um propósito global mais amplo que é, precisamente, o de gerar um processo de reflexão colectiva capaz de questionar os modelos de pensamento deshumanizantes e perversos associados ao consumo. Nomeadamente, reflectir sobre a forma despótica e silenciosa como ele se apoderou das nossas vidas e das relações humanas.

Portugal, país onde a proliferação de grandes centros comerciais e afins não cessa de aumentar, a fúria consumista é particularmente selvagem e alienadora, com os apelos e induções agressivas ao consumo a aumentaram ao mesmo ritmo que as condições sociais se deterioram brutalmente. Por esse motivo, e por todas as questões que lhe estão associadas que urge suscitar, o Dia Sem Compras pretende ser um ponto de partida para uma sociedade diferente.

Numa época pré-natalícia, em que o aliciamento ao consum(ism)o adquire contornos de verdadeiro fenómeno de psicose colectiva, o que se pretende é lançar bases de reflexão sobre aquilo que nós próprios somos enquanto seres sociais. Será que vamos, em letárgicas visitas aos centros comerciais, continuar a aceitar o papel de meros consumidores, e reduzir toda as nossas dimensões pessoais, sociais, humanas a uma mera escala de bens materiais que nos pretendem fazer crer ser essenciais para a nossa vida e felicidade?

Será que não podemos acreditar que uma sociedade que se designa por "de consumo", ou seja, descartável, despojada de conteúdo, desumana, se torne numa sociedade bem mais igualitária, fraterna e solidária para todos os seres?

Uma questão, entre tantas outras, a ser lançada no Dia Sem Compras.

mais informação sobre o Dia Sem Compras em:

http://www.gaia.org.pt/?q=node/797

A propósito do consumo e da globalização um livro absolutamente essencial: No Logo, de Naomi Klein, ed: Relógio de Água

(1) Chomsky, Noam. Duas horas de lucidez. Mem Martins, Editorial Inquérito.
(2) Baudrillard, J. (1996). A sociedade de consumo. Lisboa, Edições 70.
(3) Zanotteli cit. in. Marujo, A. (2003). Missionário "mais incómodo" de Itália quer igreja empenhada contra armamento, Público, nº4671 / 5 de Janeiro de 2003, pp. 21.
(4) Ramonet, I. (1998). The politics of hunger. [Em linha]. Disponível em <
http://mondediplo.com/1998/11/01leader>. [Consultado em 10/01/2003].


Thursday, November 16, 2006

For a Nuclear free world















Numa sociedade onde a apatia e resignação são muito generalizadas, quase que seria impossível deixar de me sentir muito entusiasmado com as notícias que chegam da Alemanha da mobilização de pessoas, movimentos, jovens ... contra aquele que é um dos “negócios” mais “sujos” do nosso planeta: a energia nuclear ... é inconcebível como se produzem resíduos para os quais não existe qualquer solução, que serão um legado cancerígeno para os nossos filhos durante centenas de anos ... também em portugal surgem alguns profectas tecnocratas e gananciosos a apregoar a “inevitabilidade” da opção nuclear ... opção? Que sentido de humor...

Ai quem me dera estar ao lado daqueles activistas nos “bloqueios Castor” ... e mais ainda, quem me dera que eles não fossem necessários, que pudessemos viver num mundo “limpo” do cancro nuclear ... e o que nos impede de lutar por isso? De exigir o nosso primordial direito a isso? Ou quem nos impede? São os tecnocratas? Os políticos? A polícia? Ou todos nós que ficamos sentados em casa confortavelmente no sofá em vez de nos sentarmos ao lado daquela gente linda nos bloqueios “Castor” ?

Imagens que tocam:

http://www.indymedia.org.uk/en/2006/11/355633.html


Wendland, Germany: Resisting Castor Nuclear Transport [en]

http://www.indymedia.org.uk/en/2006/11/355633.html


((i)) | 09.11.2006 23:22 | Climate Chaos | Ecology | World


From Friday 10th of November, around 20,000 German police were mobilised to guard the transportation of highly radioactive nuclear waste from France to Germany [Map] in containers called "Castor". The destination was Gorleben a village in northern Germany in a region called the Wendland. Protest actions took place throughout France and Germany, especially on Sunday along the last 50 kilometres of the route on rail, and on the early hours of Monday during the final 20 kilometres by road. For many activists this years Castor transport was a prelude to the protests against the next G8 summit in Germany in June 2007, where many groups call for blockades motivated by past experiences in the Wendland.


Monday, November 06, 2006

“Transe”











Já há bastante tempo que um filme não me tocava de forma tão “visceral” e me infundia emoções tão profundas e, de certa forma, perturbadoras. Transe, sem ser propriamente um filme documental (mesmo expondo de forma tão inexorável o drama do tráfico de “carne humana”), é um perturbante (é o mínimo que se pode dizer) testemunho de uma “tragédia” quotidiana que é a exploração da miséria de milhares, milhões até, de raparigas e mulheres neste nosso planeta... milhões de rapariguinhas (algumas delas ainda mal “despedidas” de uma fugidia infância) que, face à miséria de suas vidas, poucas mais perspectivas lhes restam do que agarrarem-se à ténue esperança de um emprego num qualquer país “rico”. E face à miséria também económica dos seus países de origem, até um país pobre, como por exemplo Portugal, consegue passar por país rico... Como nos oferece paradoxos tão interessantes a ordem neoliberal em que habitamos ...

Transe é um verdadeiro soco no estômago. Um soco no estômago que em larga medida é importante levarmos, sobretudo no sentido de despertar para um drama que tem a exacta escala de cada um dos seres humanos, sobretudo mulheres, de que os seus contornos se revestem ...

E creio que é essa sobretudo a dimensão mais essencial em “Transe”: a escala individual e pessoal dessa mesma tragédia e calamidade neo-esclavagista que uma sociedade essencialmente chauvinista e patriarcal persiste em reproduzir, alimentar, ignorar ... e dela todos nós somos cúmplices com o nosso silêncio, com a nossa indiferença, com a nossa insensibilidade para o drama que se desenrola mesmo ao nosso lado, numa das boates da nossa cidade nocturna, na rua, seja onda for... porquê?

No livro acabei por abordar a questão de uma forma algo lacónica talvez pela dimensão da questão em causa, mas acima de tudo pareceu-me relevante deixar essa reflexão ... “aquela” mulher que vemos nas ruas, nas boates, na berma da estrada, é um ser humano ... um ser humano, apesar de tudo, com a sua personalidade, identidade e sonhos, que numa grande parte dos casos será bem diferente do pesadelo da prostituição ... e uma “puta” não é somente uma “puta”, uma “puta” é uma rapariguinha, uma mulher, um ser humano ...

um parágrafo mais “dedicado” à reflexão sobre o conceito de “turismo de massas”, mas de qualquer das formas, creio que a exploração de milhares de raparigas, a prostituição, não deixa de ser uma das vertentes mais relevantes do “fenómeno” do turismo de masas ...

Estive a falar com a Joana, uma das responsáveis da agência nacional checa do programa juventude, sobre o país e particularmente Praga. Com a vulgarização dos voos “low-cost”, Praga começou a ser invadida de multidões ainda maiores de turistas, alguns dos quais somente para o fim-de-semana. A indústria do turismo de massas e outras que lhe estão inerentes: alcool, prostituição e drogas sofreu um “boom” de tal forma significativo que ocorreu uma enorme descaracterização na própria estrutura histórico-cultural da cidade, proliferando os bordeis, casas de sexo várias, lojas de bebidas alcoólicas e outras lembranças próprias de turismo de massas. O turismo, de uma oportunidade de promover a interculturalidade e aprendizagem a este nível, torna-se em algo que essencialmente torna cidades inteiras em parques de diversões para multidões de turistas. Quando era mais novo, fui várias vezes com os meus pais para o sul de Espanha e lá o turismo era bastante assim ... com um monte de “benidorms” espalhadas ao longo de toda a costa, com uma total descaracterização aos mais diversos níveis: ambiental, cultural, etnográfica. Infelizmente Portugal também não é muito diferente, basta observar no que o Algarve se tornou.

Praga é uma cidade particularmente bela, e não é propriamente agradável vê-la infestada desses turistas à procura de diversão barata, regada por litros de bebidas alcoólicas e muito sexo ... sendo as mulheres tratadas como um autêntico pedaço de carne que se paga para usar e abusar.”


in Pereira, Pedro Jorge; “Be the Change you Want to See - uma outra perspectiva do mundo através do voluntariado”, (Porto, Planeta Terra: GAIA, 2006) p.156


Transe” - (FRA/ITA/POR/RUS) 2006 126 min – Teresa Villaverde . Ana Moreira, Viktor Rakov, Robinson Stévenin

http://www.clapfilmes.pt/transe/

A história de Sónia, uma mulher de 20 e poucos anos que abandona o namorado e a família, em São Petersburgo, na Rússia, e decide partir sem olhar para trás para tentar encontrar uma vida melhor noutro país. Sónia vai conhecer a ilusão de uma vida nova e o inferno daqueles a quem a vida parece nada ter para dar. Fazendo a sua "via sacra" Europa fora, atravessando todo o continente, primeiro pela Alemanha, depois Itália, para acabar no extremo oposto, em Portugal, ela vai conhecer toda a miséria e degradação que o tráfico e a exploração dos mais fracos provoca. Um filme sobre a exploração e o tráfico de mulheres que a realizadora Teresa Villaverde ("Os Mutantes") explica a partir das palavras de Santa Teresa de Ávila: "O inferno é um cão a ladrar lá fora". "Estamos no início do século XXI e o cão ladra em toda a parte. Não nos livrámos da tortura, da escravatura, do genocídio. A personagem central deste filme vê esse inferno de frente e de muito perto. Penso que não chega a entrar, porque é preciso fazer parte do inferno para estar lá dentro. Ela não faz parte, mas não há saída. Jorge Semprún escreveu a propósito da sua experiência num campo nazi que um dos motores da sobrevivência é a curiosidade. Se não quisermos olhar, as chamas agigantam-se."

Saturday, November 04, 2006

GAIA lança A HERANÇA : Dia 4 e 10 de Novembro. O tempo de mudança é AGORA!








http://www.gaia.org.pt/


4 de Novembro

Dia Mundial contra as Alterações Climáticas

Relembramos neste dia Mundial contra as Alterações Climáticas a necessidade de preservar a herança de vida, que é este nosso planeta azul.


10 de Novembro

Dia Mundial contra a Shell


Ken Saro-Wiwa foi um escritor, poeta e produtor de televisão na Nigéria.

Quando assumiu funções de presidente do Movimento para a Sobrevivência do Povo Ogoni (MOSOP), uma das etnias que vivem no delta no rio Níger, Wiwa lutou pela defesa dos direitos dos 550 mil habitantes da região.